O exemplo da China

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O exemplo da China, n. 772, 31 ago. 2011.

 

Comparando a evolução do Brasil e da China, pode-se dizer que hoje o Brasil se encontra na mesma fase da China nos anos 1980, quando começou a desenvolver sua indústria moderna. Naquela década, a China não possuía produtos exportáveis, nem agrícolas, nem minerais ou semimanufaturados. Tampouco possuía equipamentos industriais modernos com os quais pudesse desenvolver suas manufaturas.

 

Se hoje a participação da indústria na economia brasileira é de 14,8%, na China essa participação, em 1980, era pouco superior a 10%. Talvez as únicas vantagens da China, na época, em relação ao Brasil de hoje, tenham sido o pleno emprego e a inflação baixa. Associadas a um racionamento sobre número considerável de bens de consumo, essas vantagens permitiram à China uma taxa de poupança elevada. O que lhe propiciou, ao abrir a economia para diferentes tipos de propriedade, contar com dezenas de milhões de investimentos em pequenas empresas de tecnologias tradicionais.

 

Porém, para instalar um grande parque industrial e evitar redescobrir a roda, a China teve, então, que apelar para poupanças e tecnologias estrangeiras. Com esse objetivo, criou políticas específicas, mas articuladas. Elaborou um guia de atração de investimentos estrangeiros, favorecendo aqueles voltados para o adensamento de suas cadeias produtivas industriais, só aceitando os que introduzissem novas ou altas tecnologias, se associassem em joint venture com empresas estatais chinesas e tivessem toda a sua produção voltada para o mercado externo.

 

Paralelamente, a China estipulou uma política seletiva de importações, facilitando a entrada de máquinas, equipamentos e tecnologias que contribuíssem para a construção industrial, e colocando diferentes obstáculos para a entrada de importados que não tivessem participação nesse objetivo. Mesmo assim, durante todos os anos 1980, a China amargou déficits constantes em sua balança comercial. No entanto, seus governantes tinham consciência de que, sem amargar tal déficit, não teriam condições de importar as máquinas e equipamentos que podiam alavancar sua produção industrial.

 

Ao contrário da China daquela época, o Brasil tem vantagens incomparáveis. Embora a indústria brasileira tenha sido abalada pelos anos destrutivos do neoliberalismo, e tenha ficado relativamente defasada, ela produz uma gama considerável de semimanufaturados e manufaturados, e é capaz de produzir algumas das máquinas e tecnologias necessárias ao seu desenvolvimento. Além disso, o Brasil possui commodities minerais e agrícolas exportáveis em abundância. Isto pode contrabalançar os custos com as importações das máquinas, equipamentos e tecnologias necessários à sua industrialização, e até mesmo manter superávits comerciais.

 

Portanto, nós não precisamos amargar os déficits comerciais sofridos pela China durante uma década. Porém, não podemos nos desenvolver sem importar máquinas, equipamentos e tecnologias, e sem contar com investimentos estrangeiros diretos. Há uma série de máquinas de fabricar máquinas, cujas tecnologias não possuímos, e reinventá-las pode significar um custo bem mais alto do que importá-las. E, entre 2000 e 2010, o máximo que conseguimos foi uma taxa de investimento, em relação ao PIB, de apenas 17,4%. Com uma taxa dessas, o máximo que o Brasil conseguirá será manter um vôo sustentável de galinha.

 

Bem vistas as coisas, o que nos falta hoje, e não faltou à China daquela época, são políticas consistentes, tanto de seleção de importações, quanto de atração de investimentos diretos.

 

Por um lado, precisamos facilitar a entrada das máquinas, equipamentos e tecnologias que jogam papel estruturante no processo de industrialização. Por outro, precisamos coibir a especulação financeira promovida pelos investimentos estrangeiros de curto prazo, reduzir os juros, estabelecer uma política cambial que funcione como instrumento de industrialização, favorecer os investimentos diretos que adensem as cadeias produtivas estratégicas, restringir os investimentos em áreas secundárias e proibir investimentos em áreas sensíveis, como os que agridem ao meio ambiente.

 

É verdade que nos últimos quatro anos os investimentos estrangeiros diretos aumentaram, mas os dados a respeito são confusos. Por exemplo, alguns falam que 95% dos investimentos estrangeiros foram para produtos básicos de exportação, incluindo nesse rol os semimanufaturados e os investimentos para a produção de petróleo. Desdenham o fato de que, quando falamos em petróleo, temos que incluir necessariamente o parque industrial de alta tecnologia que esse setor demanda.

 

Investimentos em petróleo podem estar relacionados à construção de estaleiros e plantas de fabricação de sondas, brocas, tubos e outros equipamentos e componentes, sem os quais a moderna exploração e produção de petróleo não se realiza. Assim, sem ter uma noção apropriada de onde serão investidos os 10 bilhões de dólares emprestados pelo Banco de Desenvolvimento da China à Petrobras, não tem sentido criticar os chineses por terem fornecido esse crédito.

 

Na verdade, neste caso, como em outros, parece estar funcionando uma central de desinformação sobre o que realmente está ocorrendo em relação aos investimentos no Brasil, culpando-se os chineses sobre a falta de direcionamento de tais investimentos para os setores que realmente são chaves para o desenvolvimento industrial brasileiro.

 

Basta notar que boa parte das informações sobre os investimentos chineses omite que eles também estão voltados para a implantação de parques de máquinas de construção pesada, equipamentos de petróleo e de transportes, siderúrgicas e várias outros setores industriais.

 

Desse modo, as propostas recorrentes para enfrentar o que chamam de ameaça chinesa parecem não levar em conta tais investimentos, nem a realidade de ambos os países. Por exemplo, algumas sugerem que o Brasil deva exigir que a China abra o seu mercado para produtos manufaturados brasileiros. Fingem ignorar que o acesso ao mercado chinês, como a qualquer outro mercado, depende da competitividade dos produtos, em termos de qualidade e preços, e não de medidas administrativas de Pequim.

 

A experiência da própria China é elucidativa. Ela só conseguiu ingressar no mercado internacional de produtos manufaturados quando sua indústria passou a ofertar, no início dos anos 2000, não só preços mais baratos, mas também qualidade internacional. E só iniciou sua verdadeira corrida de investimentos no exterior a partir de 2004, quando seus excedentes de capitais começaram a alcançar níveis que pressionavam em demasia as taxas internas de investimento, as matérias primas, os transportes e a inflação.

 

As empresas brasileiras só poderão se beneficiar das oportunidades do crescimento do mercado chinês quando tiverem capitais e tecnologias que as capacitem a disputar tal mercado. O que significa concorrer não apenas com as empresas chinesas, mas também com as corporações transnacionais presentes no mercado doméstico chinês, a exemplo do que fazem as brasileiras Embraco e WEG, além dos calçadistas gaúchos.

 

Se o Brasil pretende enfrentar uma pretensa ameaça chinesa, ele terá que estabelecer regras claras para que os investimentos chineses (e também das demais nacionalidades) elevem o conteúdo nacional dos seus produtos, instalem processos industriais nas áreas de recursos naturais, direcionem sua atenção para as áreas consideradas prioritárias pelos brasileiros e estabeleçam parcerias que envolvam transferências de tecnologias.

 

Finalmente, se o Brasil quer captar créditos e investimentos chineses para reformar sua infra-estrutura sucateada e tecnologicamente defasada, o governo e as empresas brasileiras, estatais e privadas, precisam ter projetos. Quem trabalha na ponte Brasil-China já está cansado de ver empresários e autoridades irem à China com “boas idéias”, como se idéias fossem projetos, e voltar falando mal dos chineses por não darem a devida atenção a tais “projetos”.

 

Em outras palavras, basta seguir o exemplo dos próprios chineses para colocar as relações do Brasil com a China, e também com os demais países, num patamar que seja claramente benéfico à industrialização do Brasil.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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