Mobilização e consciência

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Mobilização e consciência, n. 658, 17 jun. 2009.

 

 

Para tratar da relação complexa entre mobilização e consciência, ou entre prática e teoria, gosto de citar um caso ocorrido no interior do Ceará, durante a seca de 1970. Mais de 60 mil camponeses (foreiros, arrendantes, meeiros e pequenos proprietários), também chamados de “cassacos”, se encontravam agrupados em vários acampamentos das frentes de trabalho. Só voltavam para casa no final da semana, quando recebiam o “pagamento” (a maior parte em mantimentos) pelo trabalho na construção de estradas, açudes e outras obras públicas.

Os mantimentos sequer davam para as famílias se alimentarem, e a insatisfação cresceu. Os “cassacos” tomaram consciência de seu problema imediato e começaram a discutir entre si a invasão dos armazéns onde os mantimentos estavam guardados. Os líderes e militantes comunitários, isto é, os “conscientes”, tanto os que estavam trabalhando como cassacos, quanto os que estavam fora das frentes, viram-se obrigados a discutir o assunto e tomar uma posição.

A maior parte dos “conscientes” não tinha dúvidas sobre o sucesso das invasões, já que era uma vontade generalizada entre os cassacos. Uma pequena parte dos “conscientes” considerou prematuras as invasões. Argumentaram que, em seus contatos com os cassacos, verificaram que eles estavam mesmo insatisfeitos, mas a idéia da invasão não era firme. Sugeriram, então, adiar essas ações até que elas realmente fossem uma decisão madura.

Essa sugestão não foi aceita pela maioria dos “conscientes”. E o dia da invasão foi marcado. O que causou uma divisão entre os “conscientes” derrotados. Alguns acharam que não deviam participar de ações que seriam um fracasso. Os outros também concordavam que as ações eram um erro, por estarem acima do nível de aprendizado e mobilização dos cassacos. Porém, defendiam a participação sob o argumento de que, se não participassem, os “conscientes” derrotados seriam responsabilizados pelo possível fracasso. Além disso, não teriam condições de avaliar a experiência e elevar a consciência, tanto dos camponeses, quanto dos demais “conscientes”. Mais: defendiam que os “conscientes” derrotados tivessem uma participação mais intensa do que os demais.

Entre os “conscientes” derrotados a sugestão de participação ativa e intensa acabou sendo aceita, o que lhes permitiu influenciar os resultados da única invasão bem sucedida. Nas demais frentes, os cassacos recuaram e não ocorreram invasões.

Apesar desse fracasso, ou por causa dele, os “conscientes” que haviam sido contrários às invasões prematuras passaram a ser referência, não só para os demais “conscientes”, mas para parcelas diversas dos cassacos que haviam acompanhado sua atividade.

Esse caso nos mostra, ao contrário do que pensam os voluntaristas, que as massas iniciaram sua mobilização por conta própria, inclusive apontando uma proposta de luta para os militantes “conscientes”. E mostra também, ao contrário do que pensam os espontaneístas, que a consciência pode desempenhar um papel importante para evitar que a indignação diante do aspecto negativo da realidade seja confundida com a disposição de adotar uma forma de luta ou outra.

Portanto, a dinâmica objetiva de aprendizado e mobilização popular não é impermeável à ação subjetiva. Os líderes e militantes que possuem consciência das contradições da realidade, como a luta entre as classes e a luta pelo poder, têm importância tanto na organização e decisão, quanto na avaliação da luta, de modo a elevar o aprendizado e a mobilização. Mas, se não levarem em conta o nível real de aprendizado das massas, certamente cometerão erros que os distanciarão dessas massas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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