Mobilização de massas por conta própria

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Mobilização de massas por conta própria, n. 657, 11 jun. 2009.

 

 

Na história do Brasil ocorreram muitas mobilizações de massas populares por conta própria. Só para citar algumas, no final dos anos 1910, grandes greves operárias. Nos anos 1940, manifestações massivas pela participação na guerra contra o fascismo. Durante os anos 1950, grandes greves operárias em São Paulo. No final dos anos 1970, grandes greves operárias no ABC paulista. Nos anos 1990, reação popular contra o apelo de apoio feito por Collor.

Mobilizações menores, realizadas por iniciativa das próprias massas, têm sido incontáveis. Se formos examinar as grandes mobilizações, elas muitas vezes são o resultado de um prolongado processo de pequenas mobilizações por conta própria.

O torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães foi o gatilho que impulsionou as massas populares a romper as proibições da ditadura varguista e transbordar os sentimentos antifascistas, que já vinham expondo de diferentes maneiras. Incontáveis “operações tartaruga”, por inúmeros motivos localizados, foram o aprendizado “normal” para as greves no ABC.

Em todos esses casos, como em muitos outros, as pequenas mobilizações por conta própria representam um termômetro do estado de espírito das massas e de sua tendência de luta. Um dos aspectos importantes da participação de líderes e militantes dos partidos populares nesse aprendizado “normal” consiste, justamente, em poderem medir essa tendência e contribuir de forma ativa na organização e na mobilização propriamente dita.

Quando tais líderes e militantes estão presentes, e são ativos, há uma propensão de assumirem a direção das mobilizações. Isto dá a impressão de que se deveu a eles o fato de as massas haverem se mobilizado. No entanto, eles só assumiram a direção porque estavam presentes e porque captaram as razões e os limites da luta.

Não é por acaso que, mesmo estando presentes, há lideres e militantes que não conseguem ser reconhecidos como dirigentes. Tentaram impor objetivos e formas de luta mais avançados, ou mais atrasados, por incapacidade de captar as razões e limites a que as massas haviam chegado em seu aprendizado “normal”. Basta rever a mobilização operária do ABC, no final dos anos 1970, para ter uma visão mais nítida desse processo de mobilização por conta própria e de reconhecimento dos dirigentes para a luta.

Também não é por acaso que, quando não há líderes e militantes de partidos populares envolvidos no processo de aprendizado das massas, estas criam seus próprios dirigentes para a luta. Um dos casos mais conhecidos foi o dos bóias-frias, em Leme (SP), no início dos anos 1980.

Portanto, a história tem inumeráveis exemplos de mobilizações de massas por conta própria. Reconhecer essa espontaneidade nada tem a ver com “passividade” ou “adaptação” a baixos níveis de mobilização. Significa apenas partir do pressuposto de que as massas populares são os verdadeiros autores e atores da história humana. Sem entender sua dinâmica de aprendizado, nem ter em conta sua capacidade de mobilização por conta própria, tal pressuposto não passa de teoria vazia.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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