Marx em Beijing

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Marx em Beijing, n. 616, 19 ago. 2008.

 

 

Marx afirmou que a sociedade socialista, que nasce do capitalismo, surge marcada, “tanto economicamente, quanto moral e intelectualmente, pela velha sociedade”. Há, então, quem interprete isso como uma lei geral. Toda nova sociedade nasceria, necessariamente, “defeituosa”. Algo como dizer que uma criança, geneticamente marcada pelos pais, nasceu “defeituosa” por apresentar traços dos dois, ou de pelo menos um deles.

Esse conceito de “sociedade defeituosa” é uma aberração. Procura demonstrar que o socialismo só se desenvolve quando se livra, antecipadamente, dos “defeitos” do capitalismo. Esquece que, sem os “defeitos” da propriedade privada, do mercado, do Estado, da guerra, da exploração do homem pelo homem, da predação da natureza etc. etc., o capitalismo não teria se desenvolvido e criado as condições para o surgimento do socialismo.

Na verdade, alguns desses “defeitos” surgiram como qualidades, no alvorecer da sociedade humana. Foram tais contradições que levaram à superação de um tipo de sociedade por outro tipo, com novos “defeitos” e qualidades, até chegar ao capitalismo. Este, ao desenvolver ao máximo as forças produtivas sociais, apresenta a possibilidade de superar os principais “defeitos” que conduziram a humanidade a seu presente estágio. Porém, a nova sociedade daí surgida, caso se efetive, não só não será o ponto final de todos os “defeitos”, como dará surgimento a novos.

A história das sociedades humanas mostra que uma nova sociedade, capaz de superar a anterior, só se desenvolve como contradição dessa mesma sociedade. Ela só desabrocha se a sociedade que lhe deu origem criou, ao mesmo tempo, as condições materiais para ser superada. Em outras palavras, a nova sociedade é fruto das qualidades e “defeitos” da anterior, nasce com boa parte deles, e se desenvolve depois, criando novos “defeitos”, a serem historicamente superados.

O escravismo só surgiu quando a sociedade comunitária sem classes criou a agricultura e o artesanato, produziu excedentes e iniciou as trocas, necessitando de mais força de trabalho do que possuía. O feudalismo só surgiu quando o escravismo atingiu seu auge, e as disputas pelas riquezas geradas conduziram os homens a sistemas de proteção das terras e da força de trabalho.

E o capitalismo só desabrochou quando algumas sociedades feudais tiveram que buscar riquezas fora de suas fronteiras e, ao mesmo tempo, expropriar os camponeses de seus meios de produção, em especial a terra, “libertando-os” para vender sua força de trabalho a quem tivesse dinheiro para pagar. Cada uma dessas sociedades criou as classes e os homens capazes de transformá-las. Mas essas classes e homens foram superados pelas novas classes e novos homens que a nova sociedade forjou.

Portanto, a sociedade socialista só pode desenvolver-se se a sociedade capitalista tiver desenvolvido suas forças produtivas materiais a um ponto tal, que seja possível eliminar a necessidade de empregar cada um segundo suas habilidades e pagar, a cada um, segundo seu trabalho, substituindo-a pela possibilidade de aproveitar de cada um segundo suas habilidades, e fornecer, a cada um, os meios de vida necessitados.

Quem não entender isso, certamente não poderá enxergar Marx em Beijing, com todas as contradições que vislumbrou no desenvolvimento do capitalismo e do socialismo.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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