Mais vagar com o andor

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Mais vagar com o andor, jan. 2002.

 

 

Preparada com informações disponíveis até 07/02/02

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Mais vagar com o andor

Sob o argumento de que 2001 não foi ruim como se esperava, as projeções para 2002 apresentam-se otimistas na economia e na política. Naquela, espera-se câmbio estabilizado, balança comercial superavitária, PIB crescendo, inflação contida e juros em queda. Na política, aguarda-se que Lula seja derrotado por Roseana, ou pela aliança governista recomposta, e que os fundamentos econômicos não sejam tocados. E no social… Bem, no social ninguém fala, na ilusão de que vai tudo bem, tendo o piscinão de Ramos como exemplo significativo de que é possível agradar ao povão, desde que se tenha criatividade.

No entanto, é útil lembrar que as previsões de 2001 eram para lá de boas. Tão boas, que o Banco Central baixou os juros. Mas 2001 desandou, e quase nada deu certo. Nove entre 10 dos otimistas de então dizem que suas previsões não se confirmaram por causa da crise argentina, da desaceleração da economia americana, do racionamento da energia e dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, os dois últimos “imprevisíveis”.

Como em 2001, o otimismo de 2002 baseia-se apenas em fatores favoráveis: redução da crise energética, retorno da liquidez internacional, retomada do crescimento estadunidense, crescimento da economia brasileira, fim do terrorismo, preços do petróleo em queda, descolamento dos riscos Brasil e Argentina e manutenção da política econômica. Entretanto, como cuidado e caldo de galinha não fazem mal, talvez seja recomendável uma análise mais fria dos fatores “exógenos” e “endógenos” que agem sobre o Brasil, de modo a não ter surpresas, ou fatos “imprevisíveis”.

Por exemplo, o Brasil continua dependente dos fluxos de capitais e tecnologias externas e, portanto, muito vulnerável às complicações da evolução norteamericana. Se sua economia dos EUA se recuperar à custa de ações políticas protecionistas e da corrida armamentista, talvez isto tenha efeitos mais negativos do que positivos sobre a situação brasileira. Além disso, a política externa do Império do Norte tornou-se muito sensível a qualquer ação que interfira em seus interesses, a exemplo do maior relacionamento entre Buenos Aires e Brasília diante da crise Argentina. As reações políticas desproporcionais dos funcionários norte-americanos apontam para possíveis retaliações do Departamento de Estado contra aliados tradicionais, diante até mesmo de problemas menores.

A idéia de que a guerra contra o terror foi vencida, e facilmente, também não passa de ficção rósea, como o próprio presidente Bush reconhece. A coalizão do Primeiro Mundo, que deu fim ao regime talibã no Afeganistão, não tocou nas causas sociais e étnicas que alimentam essa perversão política em todo o mundo, nem parece disposta a fazê-lo, apesar do discurso do secretário de Estado, Collin Powell no Fórum Econômico Mundial, comprometendo-se a lutar também contra a pobreza. Assim, é previsível que ocorram, por um lado, outros atentados de vulto, e por outro, ações norte-americanas contra países que, segundo a visão de Washington, não agem com o rigor necessário contra o terrorismo.

Essa estratégia norte-americana contra seu inimigo invisível, porém, gera muitas incertezas, elevando as tensões. Dentro dos EUA crescem as resistências às restrições aos direitos individuais, enquanto fora aumentam as divergências com seus aliados estratégicos. As pressões contra a continuidade dos bombardeios no Afeganistão, as disputas Índia-Paquistão, as acusações sobre mísseis chineses apontados para os Estados Unidos, as divergências com a Rússia quanto à Chechênia, e a posição da Europa, Arábia Saudita, Rússia e China, contrárias à política de Sharon e Bush em relação a Arafat, são apenas sinais dos desdobramentos desencontrados da guerra contra o terrorismo.

Há ainda o fato de que a prioridade dos EUA volta-se para os países de importância estratégica nessa guerra, o que não é o caso daqueles situados na América do Sul. A não ser, é lógico, que a situação da Colômbia saia do controle e os Estados Unidos se vejam obrigados a uma intervenção mais pesada. Mas, neste caso, será difícil dizer se o saldo para o Brasil será positivo ou negativo.

Afora tudo isso, as investigações sobre a falência da Enron e a possibilidade de ocorrerem turbulências financeiras com outros gigantes empresariais norteamericanos, podem desencadear problemas econômicos, sociais e políticos, não apontados pelos otimistas, mas apesar de tudo previsíveis. Portanto, os principais fatores externos que agem sobre os cenários brasileiros possuem aspectos desfavoráveis às pencas, que comvém não subestimar.

Internamente, é verdade que as chuvas afastaram o perigo da perpetuação do racionamento, embora a um alto custo material e humano. Por outro lado, o início na operação de novas geradoras e linhas de transmissão ainda é mais projeção do que realidade, e foi preciso um apagão desastroso na parcela mais rica do território brasileiro para que todos se dessem conta de que continuamos à mercê de um mísero parafuso, ou algo parecido, entre milhares que dependem de manutenção preventiva no sistema energético nacional.

É preciso também não esquecer que as equações eleitorais continuam de alto risco para o situacionismo. A aliança no poder insinua haver chegado a acordo para unificar-se no segundo turno e para uma nãobeligerância no primeiro. Na prática, porém, as trombadas são diárias. E, tão ou mais desgastante do que isso parece o efeito simbólico negativo da aliança apresentar-se, na primeira rodada, com pelo menos dois candidatos (Serra, pelo PSDB, e Roseana, pelo PFL), e no limite, com cinco. O que pode ser devastador se o PMDB chegar às prévias e escolher um oposicionista como candidato.

Acrescente-se a tudo isso que Serra continua uma incógnita. Apesar da aparente unidade em torno dele, e da sua ofensiva e de FHC para conquistar o PMDB, o PSDB ainda tem fraturas expostas a olho nu, que dificilmente serão soldadas no curso da campanha. As manobras de isolamento contra Roseana Sarney e o PFL parecem ferir interesses de segmentos tucanos, que preferem manter a aliança com a governadora do Maranhão, e preocupam-se, se Roseana for obrigada a manter o vôo solo, não só com a oposição do PFL no Congresso, como com os respingos da rejeição do eleitorado a esse partido. Isso, sem falar nos possíveis e previsíveis efeitos eleitorais da epidemia de dengue, do crescimento sem peias da criminalidade e da total falência da segurança pública.

É verdade que a oposição sairá rachada e que existem dúvidas sobre sua unidade no segundo turno. Ela também não sabe como confrontar-se com o núcleo duro dos fundamentos econômicos de FHC, o que pode ser um desastre, do ponto de vista eleitoral, principalmente no caso de Lula. Mas ainda é cedo para dizer como o eleitorado se comportará diante dela, apesar das pesquisas de opinião.

Finalmente, os fatores sociais têm sido desconsiderados e não se sabe como eles se comportarão nos meses vindouros. Uma coisa é certa, e está ai a Argentina para mostrar: quando eles espocam, interferem em tudo e poderão embaralhar todas as demais equações da problemática brasileira. Então, mais vagar com o andor otimista, que o santo é de barro.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *