Está passando da hora

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Está passando da hora, n. 1000, 02 mar. 2016.

 

 

É verdade que a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados finalmente decidiu julgar o processo contra Eduardo Cunha. E que o STF também começa a julgar se essa figura, envolvida em corrupção e lavagem de dinheiro, deve ser devidamente processada. Também é verdade que outras figuras públicas da oposição de direita estão sob investigações de diferentes tipos, assim como uma parte considerável e importante da elite empresarial e endinheirada nativa.

No entanto, cairemos em erro crasso se considerarmos que essa aparente dispersão de alvos é um demonstrativo da “isenção”, da “neutralidade” e do “republicanismo policial e judicial”. Ou que o Partido da Mídia tem plena autonomia para alimentar a supressão das leis, sendo a verdadeira e única oposição.

Na verdade, o alvo central é a dobradinha PT-Lula. Tudo o mais é o preço a pagar para levar a opinião pública a aceitar a “isenção” e a “neutralidade” policial e judicial, e ganhar o apoio para a liquidação (é liquidação mesmo) daquela força política de esquerda. Por isso mesmo é um erro considerar que não existem classes, setores de classe, grupos, e partidos de oposição, mesmo que alguns deles estejam sofrendo as rebarbas dessa guerra de extermínio.

O Partido da Mídia, composto de diversas empresas de comunicação de massa, é apenas um dos instrumentos dessa guerra. O PSDB, o DEM e mais alguns partidos políticos também são outros instrumentos, ou armas, dessa mesma guerra. Setores do aparato do Estado, enquistados na Polícia Federal, na Promotoria Pública e no Judiciário, também estão empenhados na mesmo liça. E se pesquisarmos com atenção o conjunto das ações desses instrumentos ou armas certamente chegaremos aos setores ou frações de classe, como a burguesia financeira, nacional e estrangeira, que mexem os cordéis, e/ou comandam os botões.

Essa guerra não é um simples movimento nacional brasileiro. Está em curso nos demais países da América Latina, no Oriente Médio, na Europa Oriental, em toda parte onde exista uma resistência contra a globalização financeira às custas do sacrifício dos povos. Resistência que a banca financeira internacional pretende ver debelada por bem ou por mal. O resto é detalhe, como o atropelo da “presunção da inocência”, os “vazamentos seletivos”, o “encarceramento sem julgamento”, as “prisões aparatosas”, as “suposições” como provas etc etc.

Apesar disso tudo ser aparentemente claro, o quadro fica confuso quando o governo de coalizão, que parece dirigido pela esquerda, e parcelas do PT, fazem acordos com a oposição de direita na esperança infantil de obter alguma trégua naquela guerra de extermínio. Aceitam mudanças nas regras do pré-sal, sinalizam maiores concessões às corporações transnacionais, aceitam projetos de criminalização dos movimentos sociais, encaram com naturalidade a possível autonomia do Banco Central, realizam cortes profundos nos programas sociais, se esforçam para manter o pagamento dos juros astronômicos da dívida pública sacrificando os aposentados, e por aí afora.

Ou seja, ainda não entenderam a natureza da crise, nem a natureza do “lobo vestido de cordeiro”, acreditando que ele é capaz de se contentar com concessões. O que obriga a dobradinha PT-Lula a uma luta em duas frentes. Por um lado, não podem negar que o governo é deles. Têm a responsabilidade de ajudar, discutir, compartilhar e encontrar saídas. Não podem virar as costas e dizer que o problema não é seu. Por mais que tenham discordâncias com o “seu” governo, sabem que este precisa deles para enfrentar os ataques antidemocráticos que sofre no Congresso, na imprensa, na justiça e na sociedade.

Por outro lado, o governo segue uma trilha para o desastre econômico, social e político. Pelo menos nos últimos dois anos, por mais que tenha sido alertado dos desajustes que estava implementando, nada ouviu, nada anotou, nada aceitou. Já não adianta divergir no que tiver que divergir, falar no que tem de ser falado. Embora não se aceite golpe, já está passando da hora do PT e Lula enfrentarem o governo, e também os inimigos, de outra forma.

Talvez seja necessário retornar ao tempo em que o PT e Lula viajavam pelo país para explicar suas posições para milhões de homens e mulheres que estão dispostos não só a serem guerreiros e guerreiras para defender o mandato democrático do governo Dilma, mas também para exigir que o governo mude sua política econômica e retome o projeto social de cunho democrático e popular, há muito defendido pelo PT e por Lula.

Que projeto é esse? Um projeto que industrialize o país de forma soberana, eleve a produção de bens industriais e de alimentos, desenvolva a infraestrutura econômica, social, de saúde e cultural, e crie as condições para atender às crescentes necessidades criadas pelo aumento do poder de compra de sua população. Um país em que a desigualdade de patrimônio e renda seja substancialmente reduzida e em que as camadas populares tenham crescente participação democrática.

Lula tem razão em dizer que “o PT não nasceu pra ficar calado!” E que, “se um companheiro do PT cometeu erro, vai pagar pelo erro”. Por isso mesmo, embora seja necessário desnudar a hipocrisia da Globo com suas offshores, seus triplex e seus helicópteros, tão ou mais importante talvez seja acertar as contas com os petistas que cometeram erros e partir para a disputa, em todo o território brasileiro, dos corações e mentes do povão. Não vale a pena deixar a hora passar.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *