Entre a política e o dogma

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Entre a política e o dogma, n. 712, 29 jun. 2010.

 

 

Todo projeto tático é um projeto “rebaixado”. Os projetos estratégicos, de reformas profundas, só se tornam projetos táticos em situações revolucionárias. E situações revolucionárias só ocorrem quando a grande massa do povo não quer mais viver como antes, e a burguesia não tem mais condições de fazer concessões ou impor seu domínio.

Em vista disso, no momento atual, o grande desafio da esquerda brasileira consiste em reconhecer que a grande maioria de seu povo pretende fazer a experiência dos avanços e conquistas paulatinas, pela via eleitoral e pela pressão social limitada. Essa maioria popular somente se dará conta da impossibilidade do sucesso de tal experiência se a burguesia pretender dar um basta a ela; e, mesmo, assim por outras vias, que não a eleitoral.

Se a burguesia obtiver um “retrocesso” pela via eleitoral, isto será uma derrota profunda para a maioria popular, mas terá poucas implicações numa possível escolha por outra via de reformas estruturais. Uma derrota eleitoral do governo Lula e de seu projeto “rebaixado” será, em primeiro lugar, um retrocesso no tratamento dos movimentos sociais como interlocutores legítimos. O MST e outras organizações populares podem passar à categoria de movimentos criminosos, como sugerem os setores mais reacionários do DEM e do PSDB.

Paralelamente a isso, o freio imposto às privatizações pode ser desativado e o programa de transformação das empresas públicas e estatais em empresas privadas retomará o curso imprimido anteriormente pelo governo FHC. Os programas de redistribuição de renda, redirecionamento de maiores recursos para as economias familiares e solidárias, construção de moradias populares e assentamento de lavradores sem-terra talvez não sejam liquidados abertamente, mas sofrerão o esvaziamento proposto pelos que acham que tais programas são despesas injustificadas do dinheiro público.

A política externa, em especial aquela relacionada com a América do Sul, deverá sofrer uma completa reversão. Os ataques irresponsáveis ao governo boliviano, acusando-o pela propagação do narcotráfico, deverão pautar as ações externas demotucanas, se o candidato Serra conseguir emplacar o “retrocesso”.

Só pelos exemplos acima, que não abrangem tudo, pode-se ter uma idéia dos danos que uma eventual derrota da candidata Dilma poderão causar ao que alguns consideram “pequenos avanços e conquistas”. Porém, tão ou pior que tais danos, será a repercussão negativa que uma derrota do governo Lula exercerá sobre o ânimo de luta das grandes massas da população brasileira.

Tal repercussão negativa será ainda mais profunda se ficar evidente que tal derrota se deveu a divisões e erros da esquerda diante do adversário principal. É quase certo, como ocorreu em outros momentos históricos, que ressurja entre as grandes massas o sentimento de que elas são incapazes de garantir e manter suas conquistas. Nessas condições, a suposição de que uma vitória eleitoral do “retrocesso” não terá efeitos negativos duradouros sobre o ânimo popular, podendo até mesmo fazê-lo avançar no rumo revolucionário, é uma idéia perniciosa que desdenha a experiência histórica de luta do povo brasileiro.

Portanto, nesse plebiscito que parte da esquerda chama de disputa entre um “projeto rebaixado” e um “retrocesso”, a omissão ou a oposição a tal projeto, obscurecendo o que tal retrocesso representa e desviando votos, não será apenas um erro tático. Quase certamente terá conseqüências estratégicas muito negativas e efetuará um corte profundo no processo real de aprendizado das grandes massas do povo.

A desculpa daqueles que, durante a campanha eleitoral, pretendem combater as candidaturas que expressam o projeto neoliberal e o imperialismo, como a candidatura Serra, através da propaganda e da agitação das chamadas “questões programáticas”, parece a posição dos soldados que, em plena batalha, resolvem não atirar no inimigo por acharem que seu comandante não merece apoio.

Podem até supor que, com isso, conseguirão organizar os demais soldados, dar-lhes consciência política e incentivar suas lutas futuras. Na verdade, porém, correm o risco de morrerem com os demais, em especial se o inimigo for vitorioso. É evidente que, no caso do plebiscito atual, esses setores da esquerda talvez não arrisquem sua vida, e poderão pelo menos reclamar que o povo não lhes deu a atenção devida, como aliás já faz o PSOL.

Seria mais simples e mais fácil reconhecer que, em 2002, grande parte das camadas populares do povo brasileiro soube distinguir entre um programa democrático e popular, mesmo taticamente “rebaixado”, e um retrocesso. E que isso representou um grande avanço do movimento social e político, avanço que foi ainda mais significativo, em 2006, porque o programa taticamente “rebaixado” foi elevado vários degraus e contou com um apoio popular mais amplo.

Nas eleições de 2010, as forças de esquerda têm a oportunidade de aplicar uma política de aprofundamento dessa compreensão popular. Mas terão que fazê-la a partir do nível alcançado pelas camadas populares, e não a partir das suas supostas propostas “avançadas”. Ou seja, há uma oportunidade de ouro para elevar em alguns degraus mais o programa “rebaixado”, e combinar a vitória para os governos com uma ampla vitória para os legislativos, tanto o federal quanto os estaduais.

Com isso, pode surgir uma nova correlação institucional de forças e um ambiente de mobilização mais propício para forçar os governos de coalizão a realizarem uma maior inflexão à esquerda. Jogar no lixo essa oportunidade, por não achá-la “revolucionária” ou “programática”, é o mesmo que descartar a política ou torná-la um dogma.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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