Dúvidas

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Dúvidas, abr. 2007.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Dúvidas

Têm crescido as dúvidas sobre o andamento do PAC, como alavanca do processo de desenvolvimento. A direita, representando a parte mais conservadora das elites sociais, acha, como sempre, que a gestão governamental de Lula é péssima e incapaz de levar adiante qualquer programa. Num paradoxo relativo, essa também é a opinião de setores situados à esquerda, em geral representando as classes médias.

Uns e outros consideram que o Brasil tem um conjunto de fatores de modernização, surgidos durante os anos 1980 e 1990, que foram perdidos por falta de gestão. Nesse sentido, para aqueles setores à esquerda, FHC e Lula, Malan e Palocci,  Gustavo Franco e Meirelles seriam faces diferentes de uma mesma moeda, gestores sem visão de futuro, e avessos à crítica. Isso explicaria porque os juros e o câmbio se tornaram peças sobre as quais não se admite tocar, apesar dos prejuízos que estariam causando ao país.

Parte do chamado movimento social organizado também considera que o governo Lula tende cada vez mais para a direita e o conservadorismo, irritando-se com qualquer ação popular ou manifestação de crítica. Para essa parte, Lula e o governo já estariam considerando o movimento social não mais um aliado, mas um empecilho aos planos governamentais.  É sob esse ângulo que enxergam a discussão sobre os entraves ambientais e a demora no licenciamento das obras de infra-estrutura e, também, as mudanças no ministério do meio ambiente e no Ibama.

Não deixa de ser interessante que essa parcela do movimento social organizado tenha passado a considerar o Ibama um órgão ilibado, imune a defeitos, e o respeito à lei sua maior qualidade. Portanto, qualquer tentativa de reorganização do Ibama, ou de encontrar soluções que permitam um trâmite mais rápido dos projetos de caráter estratégico para o desenvolvimento, passou a ser encarado por essa parcela como uma agressão à preservação ambiental, e ao ecologicamente correto. É assim que interpretam a proposta de transferir para o Conselho de Defesa Nacional (CDN) as decisões de licenciamento mais importantes, as indicações do PMDB para assumir os cargos de segundo escalão no Ibama, e os esforços do governo para acelerar o projeto de interligação das bacias hidrográficas do Nordeste, projeto conhecido popular e erroneamente como de transposição do Rio S.Francisco.

Neste caso, essa parte do movimento social organizado também se coloca contra o Ibama, por haver emitido o licenciamento para a obra, embora fixando 51 condições para serem atendidas no processo de construção. Firmando uma atitude de oposição geral ao governo, promete brigar, por ter uma posição clara de combate ao projeto, lembrando que sua implementação foi impedida, durante o primeiro governo Lula, pela ação conjugada de alguns governadores, em especial o da Bahia, pela greve de fome do bispo D. Luiz Carpio, e por vários movimentos ambientalistas.

Essa parte do movimento social organizado também considera que as ações do MST são vistas como transtorno, embaraço e constrangimento ao governo, ao invés de serem tidas como uma contribuição para a solução da questão agrária e outros problemas sociais. O governo estaria dando cada vez mais sinais de não aceitar as ações do MST, porque hipoteticamente colocariam em questão os problemas estruturais do país. Assim, do ponto de vista político, parece estar se criando um hiato entre os projetos do governo e essa parte do movimento social organizado. Para esta parte, o projeto de nação do governo já não seria o projeto de nação de muitas das forças populares que contribuíram para que Lula se tornasse presidente pela segunda vez.

No entanto, esse tipo de interpretação não parece ser unânime, nem perceptível, nas camadas mais pobres da população. Aliás, tal interpretação foi recorrente durante o primeiro mandado do presidente Lula, em especial durante a crise política de 2005, levando ao distanciamento de vários setores do movimento social organizado em relação ao governo e ao PT. Apesar disso, diante da forte popularidade do presidente, da imprevisível recuperação eleitoral e política do PT, e da polarização entre direita e esquerda, presente especialmente no segundo turno das eleições presidenciais, ela teve que ser revista, e boa parte dos setores que a defendiam acabou também votando em Lula.

De qualquer modo, o fenômeno existe, pode se agravar, e ser aproveitado pela direita para criar cizânias entre o governo e os movimentos sociais, que teoricamente deveriam fazer parte de seu suporte político. Isso é particularmente importante se levarmos em conta que o mesmo parece ocorrer em relação ao PT. Segundo diversas interpretações, o governo Lula também estaria num processo de distanciamento em relação ao próprio partido, do qual o presidente foi um dos fundadores. Alguns setores analisam que a indicação de Luciano Coutinho, para a presidência do BNDES, e de Mangabeira Unger, para a Secretaria de Ações Especiais de Longo Prazo, demonstrariam o desprestígio da intelectualidade do PT e do próprio partido diante do governo.

A indicação de ambos para funções relevantes no governo, embora sem possuir qualquer vínculo com a história do PT, mostraria como esse partido teria ficado encolhido e medíocre, incapaz sequer de protestar diante do fato. Esse tipo de avaliação sobre o PT também parece ter sido muito comum durante a crise de 2005. Basta relembrar que, naquela ocasião, vários quadros partidários o abandonaram na suposição de que o partido acabaria. Como naquela época, tal avaliação parece desdenhar o fato de que o governo não é do PT, mas de uma coalizão, do qual o PT faz parte. Finalmente, talvez também se esqueça de que o primeiro presidente do BNDES na gestão Lula foi Carlos Lessa, que nada tinha a ver com a história do PT.

De qualquer modo, apesar dos possíveis exageros contidos nessas interpretações e avaliações, elas podem revelar um certo distanciamento real entre Lula e o movimento social organizado, representativo dos setores médios, e entre Lula e o próprio partido, agora considerado apenas como mais um partido da coalizão governamental. Em termos imediatos, isso pode não ter outras conseqüências além das interpretações a respeito, e dos debates que ela pode causar. Em termos de mais longo prazo, isso pode causar uma brecha relativamente profunda entre diferentes concepções de sociedade dentro da coalizão de governo, podendo empurrar o PT e parcelas maiores do movimento social organizado para um tensionamento pouco saudável com o presidente.

O problema consiste em que o presidente pode não ter dúvidas de que basta considerar, para a inclusão social, seus programas sociais e de crescimento, aí incluídos o PAC e sua determinação de manter e ampliar o Bolsa Família, e não reduzir os benefícios da Previdência. Ou, ter dúvidas sobre a necessidade de fortalecer a imensa massa de setores intermediários, como condição objetiva para gerar os empregos que a grande indústria e o agronegócio não conseguem gerar, e para ingressar num desenvolvimento sustentado. Assim, nesse caso, como em outros, os ajustes certamente dependerão do próprio presidente superar suas prováveis dúvidas.

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