Desesperos delirantes

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Desesperos delirantes, ago. 2006.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Desesperos delirantes?

Durante todo o mês de agosto, as oposições carregaram em suas linhas de crítica econômica e social ao presidente Lula, procurando derrubar sua candidatura naquilo que lhes parecia menos passível de risco. Os resultados são conhecidos. Ao invés de despencar, a popularidade do presidente aumentou, e a avaliação de seu governo cresceu. Se a eleição fosse no dia primeiro de setembro, o presidente venceria folgado no primeiro turno.

Desse modo, tudo aponta para as oposições, numa santa aliança, concentrarem suas baterias na crítica moral a Lula e ao PT. O quesito corrupção parece ganhar o pódio, deixando em segundo plano as questões de incoerência e impunidade. Seja porque a Polícia Federal está apresentando os maiores resultados de toda a sua história, inclusive no combate aos crimes de colarinho branco. Seja porque a situação da segurança paulista apresenta um flanco aberto na campanha tucana. Assim, as acusações ao chamado “mensalão” deverão inundar a campanha eleitoral, e voltar a ser os principais petardos para tentar desconstruir a imagem do presidente e do PT.

Essa inflexão apresenta, porém, alguns problemas para as oposições. Primeiro, durante os últimos 12 ou 13 meses, aquelas acusações não redundaram na pretendida desconstrução. Depois, elas parecem ser a arma final em poder das oposições. Não há indícios de que as estas possuam qualquer outra arma democrática para contrapor-se ao presidente. Sobrou-lhes apenas a esperança desesperada de que finalmente o povão acredite que o PT e o presidente “éticos” teriam afundado na lama, e feito o Brasil submergir nos “maiores escândalos de corrupção” de sua história. Só lhes restou essa arma negativa, que parecem dispostas a utilizar ao limite.

Nesse sentido, na reta definitiva da disputa eleitoral, são preocupantes alguns sinais dessa disposição. Setores do PSDB e do PFL parecem empenhados em dar uma forte conotação “sinistra” à reeleição de Lula, principalmente se isso acontecer no primeiro turno. Argumentam que a decisão do eleitor será soberana. Alertam, porém, para o perigo desse mesmo eleitor dispensar o segundo turno, prejudicando o que chamam de “qualidade democrática da eleição”. A razão deste prejuízo: a reeleição do presidente Lula no primeiro turno impediria o debate programático e, por conseqüência, não deixaria clara qual é, de fato, a diferença entre os principais candidatos a presidente da República.

Outros setores oposicionistas parecem querer ir mais longe nesse tipo de argumentação. Dizem que a reeleição pode ser o passo inicial para tentativas de mudança autoritária das regras do jogo político. Estaríamos diante do perigo de uma hegemonia neopopulista de longa duração no país. Insistem que, se Lula for consagrado pelas urnas com votação expressiva, ele e sua tropa atropelarão aliados, adversários e instituições, falando diretamente para as massas.

Há mesmo os que chegam a afirmar que tais tentativas de mudança autoritária já estariam em curso. Embora pareçam delírios de uma noite gélida de inverno, relacionam tais tentativas à descoberta de corrupção em larga escala nos Parlamentos e às ações terroristas praticadas pelo PCC. Todas estariam sendo produzidas para causar comoção na opinião pública, e manipulá-la com vistas a aceitar o que chamam de medidas regressivas.

Argumentos desse tipo parecem querer levar à conclusão de que, se ocorrer a reeleição do atual presidente, isso representará que a mais alta corte do país, o próprio povo, terá anistiado o escândalo do mensalão e fortalecido Lula. Isto é, fortalecido o presidente de tal modo que, com isso, estariam abertas as portas para que o governo seja tomado por políticos sem doutrina, fáceis de escorregarem em aventuras autoritárias. Nessas condições, já em crise institucional, o Brasil a verá agravar-se e será levado a tomar remédios amargos.

Enquanto a argumentação de salvar a democracia dos erros e afoitezas do povo mantinha-se no campo do terrorismo psicológico, idêntico ao terrorismo sobre o caos econômico e financeiro que marcou a campanha de 2002, era possível creditá-la ao ardor e ao desespero do debate. No entanto, quando o ex-presidente FHC lamentou não existir no Brasil de hoje alguém como Carlos Lacerda, com a capacidade de dramatizar e cobrar, dar nome aos bois e arriscar, botanto fogo no palheiro, isso parece haver introduzido naquela argumentação uma tonalidade que, há uns bons anos atrás, todos chamavam de golpismo.

Carlos Lacerda foi político marcante de sua época. Foi esquerdista e membro do partido comunista, depois transitando para a direita. Durante a campanha presidencial de 1950, em que Vargas era um dos candidatos, utilizou os argumentos do perigo, que representaria para a democracia, a eleição do ex-ditador. Após a consagração eleitoral do antigo pai dos pobres, Lacerda não só pregou a intervenção militar para apeá-lo do poder, como conspirou intensamente, ajudando a dar o golpe de 1954, que levou o presidente ao suicídio.

Com argumentos idênticos, trabalhou contra a eleição, a posse e o governo de JK. Em 1955, declarou abertamente que “Juscelino não será candidato; se for candidato, não será eleito; se for eleito, não tomará posse; se tomar posse, não governará”. O partido de Lacerda, a UDN, tentou impugnar a vitória de JK, usando como argumento que Juscelino recebera o voto dos comunistas. Depois, Lacerda participou do golpe frustrado de 1956, e apoiou todas as sedições militares contra o governo JK. Em 1964, participou ativamente do golpe contra o governo Jango e da instalação da ditadura militar. E, como ocorre muitas vezes com as ironias da história, viu-se alijado pelos militares, e acabou aliando-se a JK e a Jango, numa Frente Ampla para opor-se à ditadura.

FHC talvez não possa usar a desculpa de desconhecer o viés golpista e incendiário de Lacerda. Nem ignorar que, por coincidência ou não, após sua peroração, tucanos e pefelistas importantes questionam, de forma crescente, a legitimidade da vitória de Lula, utilizando todo tipo de argumento. O “mensalão”, a ausência aos debates na TV e aos auditórios dos jornais, o surgimento de novos casos de corrupção (mesmo que não existam petistas envolvidos), o apoio explícito de setores populares ao governo, a previsão de uma crise fiscal em 2008, ou de um novo apagão elétrico entre 2008 e 2010, tudo serve.

FHC pode até argumentar que se deixou trair pelas palavras, e que não está buscando ninguém que se arrisque num golpe.  Mas é provável que isso não baste para tirar a impressão de que deu início a uma pregação golpista, que parecia sepultada no passado da brasileiro. E que, como mostrou a história e a experiência de Carlos Lacerda, sabe-se como começa, mas dificilmente sabe-se como termina.

A desqualificação do povo, do voto e dos motivos que explicam o apoio da maioria do eleitorado a Lula podem até ser um desabafo de desespero. Em tal caso, ela talvez seja compreensível para promessas de abandono futuro da política, como a feita pelo senador Jefferson Peres. Porém, apelos que parecem chamadas diretas ao golpismo, mesmo em nome da democracia (como aliás foram todos os golpes), dificilmente podem ser desconsiderados. Talvez sejam delírios, ou fantasias, de difícil concretização. Mas não nos deixam esquecer algumas dessas experiências históricas, assombrações que podem perturbar a vida da jovem democracia brasileira.

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