Desenvolvimento desigual

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Desenvolvimento desigual, n. 575, 07 nov. 2007.

 

 

Alguns teóricos enganaram-se quanto ao fim do trabalho. Mas ainda há muita gente acreditando que já ingressamos num capitalismo pós-industrial. Neste, a produtividade seria sustentada pelo trabalho imaterial. Embora as empresas tenham que contar com algum trabalho vivo, haveria a predominância dos serviços sobre as atividades agrícola e industrial. A lei do valor não teria mais vigência sobre seus trabalhadores informacionais, cujos produtos seriam “imateriais”, incomensuráveis.

Teríamos uma contradição incompreensível. Por um lado, um mundo de altos níveis de desenvolvimento técnico-científico, que permitiriam reduzir as jornadas de trabalho e fornecer à espécie humana condições de vida confortáveis, a custo quase zero. De outro, este mesmo mundo estaria fazendo ressurgir formas escravistas ou semi-escravistas de trabalho, grandes jornadas, e disseminando a informalidade, o sub-emprego e o desemprego.

Porém, parece ainda mais incompreensível o fato de que esse mundo se defronta com uma impressionante expansão das atividades industriais, predominando sobre os setores agrícolas e os serviços. Por um lado, nos países de capitalismo avançado, as atividades industriais foram reorganizadas, levando ao surgimento das corporações, que combinam, sob um mesmo teto empresarial e financeiro, indústrias, agroindústrias, agricultura, pecuária e serviços diversos.

Por outro, em países que pareciam incapazes de erguer-se, há uma forte tendência de industrialização, utilizando tanto plantas industriais enxutas, com alta composição tecnológica e pequeno emprego de força de trabalho, quanto plantas industriais do velho sistema fordista, ou mesmo artesanal, empregando milhares de trabalhadores. Com isso, ao invés da suposta desaparição do trabalho, e da classe operária que o realizava, tivemos o ingresso de algumas centenas de milhares de pessoas no mercado industrial de trabalho, que era dado como moribundo.

Assim, enquanto olhávamos apenas para os EUA e Europa, as coisas pareciam de um modo. Quando fomos obrigados a olhar para a Ásia e, mais recentemente, para a África e a América Latina, vimos que o antigo não só se confundia, como se misturava, com o novo. E redescobrimos que o capitalismo apenas continua em sua trilha de desenvolvimento desigual, mundializando seu modo de produção, tanto em países que já pareciam fora da história, quanto em outros que haviam tentado evitar suas dores na transição para uma sociedade superior.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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