De grave a gravíssima

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | De grave a gravíssima, jul. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

De grave a gravíssima

Os dias transcorridos desde os últimos comentários assistiram à plena continuidade da estratégia de combate da oposição contra o governo Lula e o PT. A nova tropa de choque oposicionista, presente na CPI dos Correios, concentrou seus ataques na desestruturação do PT, buscando associá-lo inapelavelmente à corrupção. Em alguns momentos, esses ataques desviaram-se contra aquilo que o prefeito César Maia chama de GP, ou Gabinete Presidencial, levando vários tucanos e pefelistas a retomarem a tese do impeachment do presidente Lula, embora não abertamente, pelo menos até o dia 7 de agosto.

Como sustentamos anteriormente, a estratégia e as táticas oposicionistas têm limites, cuja transposição pode fazer com que as pedras arremessadas se voltem contra os próprios atiradores. Afinal, todo mundo sabe como funciona o sistema de financiamento das campanhas eleitorais brasileiras e como tal sistema permite enriquecimentos ilícitos, subornos, achaques e “favores”. E muita gente sabia que o operador Marcos Valério transitava com desenvoltura, nesse “segmento de mercado”, bem antes de oferecer seus serviços ao ex-tesoureiro e a alguns dirigentes do PT. Não será difícil deduzir que uma investigação mais profunda entrará História adentro, atingindo bem além do PT e seus aliados de ocasião.

A consciência desses limites talvez tenha sido um dos fatores que levaram o deputado Roberto Jefferson a ser tão ousado em suas denúncias. Suas recentes tentativas de um acordo pizzaiolo com o PL, através do presidente da Câmara, mostram o quanto supunha, diante daqueles limites, que a oposição e o próprio PT teriam interesse em colocar um freio às investigações e realizar algum tipo de abafa. Tudo indica, porém, que a porta do inferno já foi ultrapassada e não há mais retorno, pelo menos para aqueles que entraram por ela. Por mais que o presidente nacional do PSDB e o ex-ministro do PFL tentem dissociar-se do dinheiro fétido de Marcos Valério, ficou muito difícil ter dois pesos e duas medidas para o tratamento de casos idênticos. O que os tem resguardado, mas só em certa medida, é o fato de que toda a imprensa só quer o escalpo do PT e este ainda se acha em completa defensiva.

Como há inúmeras forças concorrentes, tanto na oposição, quanto na situação, os recuos da oposição a respeito da idéia do impeachment e da aceitação de uma pauta positiva, para manter o Congresso funcionando e permitir a governabilidade, não significam que as tentativas de desestabilização e de impedimento do governo estão superadas. Significam, apenas, que parte da oposição talvez tenha se conscientizado de que sua estratégia e suas táticas podem voltar-se também contra ela, e de que a popularidade do presidente Lula entre as camadas de mais baixa renda continuam intactas, sendo provável que ocorra uma convulsão social em caso dele ser apeado do governo antes do tempo legal.

Apesar disso, aqueles setores oposicionistas que podem ser atingidos, caso as investigações entrem História adentro, parecem haver decidido jogar peso no impeachment. O artigo do ex-presidente FHC em O Globo, assim como a capa da revista Veja, ambos do último dia 7, representam um chamamento aberto para que os procedimentos democráticos sejam atropelados e o presidente da República seja responsabilizado pelos atos de seu ex-chefe da Casa Civil e outros dirigentes do PT.

O PT, por seu turno, tenta recuperar-se e dá alguns indícios de que começa a compreender que corre perigo de morte. No entanto, permanece atordoado e sem política unificada para enfrentar a ofensiva oposicionista e o envolvimento de alguns de seus dirigentes em ações ilícitas. Seu ritmo de recuperação parece emperrado pelo que restou do antigo Campo Majoritário em sua direção nacional, o que o impede de limpar a casa e passar à contra-ofensiva política. Ao invés de adotar medidas fortes em relação a Delúbio Soares, Sílvio Pereira, Marcelo Sereno e José Dirceu, contra os quais há fortes indícios de crimes contra os estatutos partidários, a maior parte da direção petista preferiu deixar o PT ser tratorado pelas manobras protelatórias do Campo Majoritário.

Além disso, o PT se vê às voltas com as versões, de muitos analistas, de que a estratégia de Lula e do governo consiste em dissociar-se do PT. Alegam que a influência do presidente sobre as camadas trabalhadoras e populares é maior do que a do PT. Metade da sociedade brasileira ainda acredita no presidente e o apóia, enquanto os que acreditam e apóiam o PT reduziram-se muito. Em tais condições, o PT teria se tornado um estorvo e um perigo para o presidente.

Tais “análises”, na realidade, fazem parte da estratégia geral oposicionista, de primeiro destruir o PT, para depois derrotar Lula mais facilmente. Mas elas podem “colar” e, em tal caso, os limites da oposição também virão à tona. Afinal, sem um partido que dê capilaridade e organicidade à influência do presidente sobre as camadas populares, só restará a Lula o caminho do total descrédito, com sua renúncia, ou do populismo, para defender-se. Os riscos deste último caminho, para ele, para os partidos situacionistas e oposicionistas, e para a democracia brasileira, são muito maiores do que o caminho de depuração e redenção do PT.

Nessas condições, os cenários futuros estão condicionados, em primeiro lugar, pela consciência da oposição em seus limites. PSDB, PFL e outros aliados podem achar, como FHC, que a “hora é agora”, porque o PT está enfraquecido e Lula supostamente derrotado, sendo possível retirá-lo antes do tempo, através de uma ação de impedimento político. Ultrapassarão em muito seus limites, colocarão fogo no circo e jogarão o país em vários anos de disputas políticas e sociais, cujos contornos ainda são difíceis de delinear.

A oposição pode, porém, medir tais limites e jogar seus esforços para derrotar Lula nas próximas eleições. Nessas condições, os cenários futuros passam a ser condicionados principalmente pela recuperação e ação do PT. Se conseguir re-pactuar-se internamente, limpando sua direção e seu corpo partidário de elementos considerados verdadeiros estranhos no ninho, pedindo desculpas ao povo brasileiro por haver cochilado diante das irregularidades cometidas por tais elementos, formulando limites claros para suas alianças e suas relações com os diferentes estratos sociais, e redirecionando suas estratégias e suas táticas, é possível que o PT resgate parte de seu antigo prestígio.

Para que tal aconteça, o PT terá, ao mesmo tempo, que aumentar sua pressão por políticas fortes em investimentos produtivos, redução de juros, criação de empregos, redistribuição de rendas e democratização da propriedade fundiária. Sem fazer isso, pode até recuperar sua dignidade, mas não sua base social. O governo Lula, por sua vez, se não aceitar a pressão petista, terá novas áreas internas de atrito e dificilmente poderá contar com o PT como suporte seguro. Se aceitar as pressões do PT renovado, poderá tê-lo novamente como sua principal base de apoio. Mas se verá constrangido a realizar mudanças em várias de suas políticas e em sua própria composição, fazendo surgir novas áreas externas de atrito.

No momento, os sinais de arrefecimento da crise ainda são tênues, enquanto as declarações teatrais e as propostas golpistas são fortes. Assim, a única certeza, em qualquer exercício de cenários futuros, é que a situação passou de grave a gravíssima, embora não irreversível.

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