China: mitos e realidades (3)

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | China: mitos e realidades (3), jan. 2004.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

CHINA – Mitos e Realidade (3)

Continuando a falar da China, o Mito 7 é aquele que diz existir uma incompatibilidade intransponível entre crescimento e distribuição simultânea de renda. Na China, porém, o crescimento médio do PIB tem se mantido entre 7% e 9%, enquanto o crescimento médio da renda real se mantém entre 5% e 6%. Atualmente, a população “medianamente abastada” (padrão belga de vida) soma cerca de 250 milhões de pessoas. Nos próximos 5 a 10 anos deve chegar a 500 milhões, enquanto a meta para 2020 é que esse padrão seja a base para toda a população chinesa (1,4 bilhão de pessoas).

Os chineses substituíram a suposição de uma evolução igualitária do padrão de vida por uma política de “enriquecimento em ondas”. Os que enriquecem primeiro devem contribuir para o enriquecimento dos atrasados, seja pelo exemplo, seja através de investimentos produtivos e sociais. Assim, enquanto estimula diversos tipos de propriedade e de geração de riqueza, a China pretende evitar polarizações sociais. Reforma continuamente os salários e rendimentos, acompanha os preços e está sempre pronta a adotar medidas que evitem sobrecargas ou restrições ao poder de compra da população.

Até 1978, o sonho de consumo da população chinesa restringia-se à máquina de costura, bicicleta e rádio de pilha. A moradia dependia das empresas. Em 2002, mais de 59% das famílias chinesas haviam adquirido moradia própria. O número de telefones fixos havia chegado a 218 milhões e o de telefones móveis a 212 milhões. Nesse ano foram vendidos 10 milhões de computadores e o número de usuários da Internet elevou-se a 59 milhões. O número de automóveis particulares superou os 11 milhões. A produção de televisores a cor é superior a 51 milhões por ano, sendo crescente a aquisição de TV’s de alta definição, refrigeradores, freezers, condicionadores de ar, aquecedores, câmaras de vídeo e outros tipos de eletro-eletrônicos. Mais de 800 milhões de chineses praticaram algum tipo de turismo doméstico, enquanto as viagens ao exterior crescem 15% ao ano, numa demonstração da expansão do mercado doméstico.

Na mesma linha de “crescimento em ondas” encontram-se as políticas de redução das desigualdades regionais. Por um lado, o principal instrumento de erradicação da pobreza consiste em investimentos nas zonas mais pobres, principalmente em infra-estrutura e educação. Por outro, o Centro-Oeste da China tornou-se, a partir de 1995, a principal região de desenvolvimento do país, de modo a elevar suas províncias e populações aos patamares alcançados pelas regiões litorâneas.

Mito 8: A China só é capaz de produzir quinquilharias

É verdade que a China ingressou no mercado internacional principalmente com produtos de consumo cotidiano, no vácuo deixado nesses segmentos pelos países desenvolvidos e pelos tigres asiáticos. E que até hoje ela continua um produtor imbatível de mercadorias aparentemente supérfluas, de qualidade duvidosa e de baixíssimo custo. No entanto, ela desmentiu o mito de que seria incapaz de alcançar outros níveis.

Construiu sistemas de infra-estrutura e logística, adensou suas cadeias produtivas, ampliou seu sistema educacional e de pesquisa científica e tecnológica e vem reformando seu sistema financeiro. Com isso, alcançou uma dimensão que a capacita a enfrentar qualquer desafio de qualificação econômica e tecnológica. Exemplos disso são suas indústrias de equipamentos de satélites, telecomunicações, chips, computadores, foguetes espaciais, biotecnologias, eletroeletrônicos, novos materiais, navios e equipamentos industriais.

Mito 9: Os rombos bancários são irrecuperáveis

Esse mito passou a ser novamente difundido por comentaristas que só agora descobriram a China. No entanto, ele é conhecido desde 1978. Nessa ocasião, a China enfrentava quatro grandes problemas financeiros: a) a participação do governo central na arrecadação global do país era relativamente baixa; b) as taxas extra-orçamentárias concorriam com os impostos; c) havia cerca de US$ 58 bilhões de créditos irrecuperáveis dos bancos estatais; d) o mercado de capitais não possuía estrutura regulatória.

De lá até 1995, a participação do Estado no produto do país contraiu-se ainda mais: de 40% para 10,7%. Ficou muito abaixo dos níveis internacionais e enfraqueceu a capacidade do Estado de fazer o macro controle do desenvolvimento do país. As tentativas de incrementar os investimentos públicos através dos governos provinciais e locais falharam porque esses governos tendem a alocar recursos apenas em setores de retorno rápido. O que não é o caso de áreas estratégicas, como a agricultura, a educação e a saúde. Assim, para fazer frente à escassez de fundos para sustentar o desenvolvimento, a China passou a lançar títulos, arriscando-se a uma situação difícil, quando tiver que saldar seus débitos.

Ela também não tinha controle sobre as taxas extra-orçamentárias cobradas pelos departamentos governamentais. Em 2000, existiam mais de mil, cujos valores chegavam ao dobro do valor dos impostos. Sem gerenciamento estrito e supervisão eficiente, esses recursos tornavam-se alimento para a corrupção. Em tais condições, tornou-se inadiável intensificar as reformas para eliminar a maior parte das taxas, transformar algumas em impostos, redistribuir a participação dos governos na arrecadação e estabelecer um sistema fiscal cobrindo todas as atividades econômicas.

Isso incluía os bancos que, até 1980, eram simples repassadores de verbas para as empresas. Nos 15 anos seguintes, eles se tornaram bancos comerciais, mas os créditos podres haviam aumentado, chegando a 7% dos empréstimos em moeda local e estrangeira. Embora tidos como custo inevitável na transformação de uma economia centralmente planificada numa economia de mercado, esses gigantescos ativos não realizáveis (NPL’s) constituíam um evidente risco financeiro.

Os NPL’s começaram a ser reduzidos numa média de 2% a 3% ao ano, mas isso era insuficiente. Para dar solução a essa situação, em 2000 a China criou companhias de administração de ativos. Elas absorveram, em créditos podres, 1,4 trilhão de yuans (US$ 169,1 bilhões) e, até setembro de 2001, haviam conseguido recuperar 40,13 bilhões de yuans. Paralelamente, foram criadas empresas de avaliação de risco, para supervisionar o sistema de crédito, e intensificados os esforços para reformar a legislação, tornar mais confiáveis as informações e padronizar o sistema. Tal processo continua.

A parte mais débil do sistema financeiro chinês, porém, não eram seus bancos, mas sim seus fundos de investimentos. Após a falência, em 1998, da Guangdong International Trust & Investment Co., incapaz de pagar débitos de US$ 3,38 bilhões, seguiu-se a quebra de fundos semelhantes em Hainan, Dalian e Tianjin, e de outras 116 companhias. Metade dos fundos existentes envolvera-se em atividades não relacionadas com investimentos, aceitara ilegalmente depósitos de pessoas físicas e lançara bônus internacionais sem aprovação das autoridades monetárias. O setor pareceu haver ingressado numa crise sem retorno.

Em resposta, porém, o Banco Central chinês lançou uma campanha de reestruturação do setor, com base em nova Lei sobre Fundos de Investimento, incluindo a implementação de medidas como a separação das empresas de seguros e dos fundos de investimento. Os 120 fundos restantes tiveram que adaptar-se a regras severas de avaliação de risco. Novos produtos só podem ser lançados após avaliação por um grupo de especialistas do Banco Central.

Em outras palavras, o sistema financeiro chinês tem problemas (qual não tem?), mas eles estão sendo resolvidos e seus rombos paulatinamente fechados.

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