Cenário nada agradável

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cenário nada agradável, n. 792, 25 jan. 2012.

 

 

O debate sobre o desenvolvimento é, muitas vezes, embaçado pelas discussões localizadas sobre proteção ao meio ambiente, respeito ao direito tradicional de comunidades indígenas, oposição aos interesses das grandes construtoras, defesa dos interesses dos trabalhadores contra a exploração capitalista, resistência ao desarranjo urbano causado pelas grandes obras na moradia, saúde, educação etc. etc. etc.

Essas discussões, segundo seus defensores, nada teriam a ver com a decisão de adotar o desenvolvimento geral do país como uma opção estratégica para criar condições favoráveis à implantação de um caminho democrático e popular. Opor-se à construção das usinas hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antonio e Jirau, por exemplo, não significaria, de forma alguma, opor-se ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Significaria, tão somente, opor-se a um modelo superado de desenvolvimento, no qual as grandes empresas capitalistas têm papel preponderante.

Já meio cansado de repetir a defesa dos argumentos favoráveis a essas e outras obras de infra-estrutura, como componentes importantes do processo de desenvolvimento do país, talvez seja melhor me curvar aos opositores e fazer um breve exercício dos possíveis cenários, por exemplo, caso os procuradores da república consigam embargar todas as obras de hidrelétricas do país.

Argumentos não faltariam. O meio ambiente, principalmente amazônico, não seria arranhado e passaria a ser efetivamente protegido. As comunidades indígenas da região poderiam ter mais tranqüilidade de vida. A reprodução dos peixes continuaria sendo abundante e as populações ribeirinhas teriam garantida sua alimentação tradicional.

As vilas e cidades da região não se veriam assediadas por demandas excessivas de moradias, salas de aulas, ambulatórios e hospitais. E, tão importante quanto, milhares de trabalhadores seriam salvos da brutal exploração imposta pelas empresas construtoras.

Como complemento, os procuradores poderiam ainda conseguir do governo Dilma o compromisso formal de buscar com mais afinco a elaboração e a implantação de um projeto de desenvolvimento voltado mais para o ambiental e para o social, evitando a industrialização poluidora e propiciadora da exploração capitalista. Não sei se poderiam, de quebra, dar sugestões de como obter os recursos indispensáveis para recuperar e proteger o meio ambiente, e continuar bancando os programas sociais. Mas isso, na visão de alguns, é um problema secundário.

Aquele cenário idílico, é preciso reconhecer, nos levaria a conviver, em pouco tempo, mesmo mantendo um baixo crescimento econômico de 3% a 4% ao ano, com cortes no fornecimento de energia em algumas regiões. O que nos colocaria diante da necessidade de colocar em funcionamento as usinas térmicas existentes. Porém, se os procuradores da república também conseguirem embargar o funcionamento das usinas térmicas, e impedir a construção de novas, com o justo argumento de que tais fontes de energia são extremamente poluentes, os cortes deverão se intensificar, em especial na região amazônica e no centro-oeste.

Contrabalançar tudo isso com a construção de geradoras eólicas e solares talvez não seja tão fácil, tanto em termos técnicos, quanto financeiros. Um simples exemplo: para substituir a capacidade de geração de uma usina hidrelétrica de 3.000 MW será necessário construir 10 parques eólicos de 300 MW, cada um deles compreendendo 100 torres com aerogeradores de 3 MW. Além do que será necessário resolver o problema técnico de manter a continuidade da transmissão na rede elétrica nos momentos em que não houver vento acionando os geradores.

Supondo-se que os inconvenientes de cortes no fornecimento de energia não causem estragos imediatos na popularidade da presidenta Dilma, embora seja certo que ela será xingada com palavrões impublicáveis se os cortes apagarem as TVs durante os jogos do Brasil na Copa de 2014, e que ela consiga se reeleger nas eleições presidenciais desse mesmo ano, seu governo terá que se confrontar, logo depois, com a opção de suspender a política de crescimento econômico. Sem um fornecimento firme de energia elétrica não é possível elevar a produção industrial, nem manter o comércio e um grande número de serviços funcionando.

Se a presidenta, apesar disso, persistir em sua decisão de elevar a produção industrial no ritmo necessário à geração de novos empregos e ao aumento da oferta de bens demandados pelo crescimento populacional, será inevitável que os apagões elétricos se sucedam em cascata. Em algum momento aquela persistência presidencial será superada, objetivamente, pela paralisação econômica.

Não é difícil prever que aumentará o desemprego e que, sem a geração de novas riquezas, o Estado não terá recursos para moradia, educação, saúde, saneamento e outras demandas sociais. Tucanos e demos se transformarão em desenvolvimentistas de primeira hora e, com a insatisfação se alastrando, poderão finalmente proclamar que vão, democraticamente, pelo voto popular, acabar com o nefasto e paralisante governo dirigido pelo PT.

Bem vistas as coisas, as resistências de certos setores da esquerda ao desenvolvimento econômico e social contêm um viés regressivo, na errônea suposição de que ele propicia o crescimento capitalista, e até mesmo do capitalismo de Estado, mas esvazia as possibilidades revolucionárias de superação desse modo de produção.

Não partem do pressuposto de que o desenvolvimento do capitalismo gera o crescimento da classe operária, criando condições para sua conformação como força social ativa ao obrigá-la, assim como a outras classes populares e democráticas, a reivindicações e lutas mais elevadas. Preferem evitar tais desafios, tentando frear o desenvolvimento capitalista.

Ao invés de aproveitarem as novas demandas por salários, moradia, educação, saúde e outras exigências sociais e ambientais para organizar a luta dos trabalhadores e ajudá-los a elevar sua consciência de classe, acham mais fácil parar a roda da história. Do ponto de vista político, como acontece quase sempre com as tentativas ultra-esquerdistas, o resultado final é de ajuda à direita. Um cenário nada agradável.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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