Capitalismo agrário

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Capitalismo agrário, n. 563, 15 ago. 2007.

 

 

Confundir o modelo do agronegócio com o velho modelo latifundiário é o mesmo que confundir o atual modelo industrial com o velho modelo manufatureiro. Excetuando a alta concentração da propriedade da terra, mudaram os meios de produção e as relações de trabalho.

São outros os processos atuais de fertilização do solo, melhoramento de sementes, mecanização da aração, tratos culturais e colheita, combate a pragas, e transporte da produção. Às monoculturas de cana, café, ou gado, foram acrescentados grandes cultivos de soja, milho, laranja, arroz e algodão. Desenvolveram-se, ainda, inúmeras outras culturas, e a pecuária está sendo transformada em criação intensiva.

As relações de trabalho também mudaram. Lembremos que, após o fim do trabalho escravo, o latifúndio adotou o sistema híbrido de parceria, arrendamento e aforamento, no qual os camponeses chamavam a si próprios de “agregados”. Não possuíam terra, nem recebiam salários. Trabalhavam “de favor” na propriedade do latifundiário, a quem pagavam um terço, ou a metade, do que produziam. Além disso, tinham que trabalhar, em “dias cativos”, em serviços de usufruto do latifundiário. Somente por volta dos anos 1940, e apenas em algumas regiões do país, esse trabalho “cativo” passou a ser remunerado em dinheiro.

Hoje, o trabalho assalariado é predominante nos latifúndios e nas médias propriedades capitalistas. O modelo do agronegócio, embora ainda possua vínculos de dependência com o capital internacional, que monopoliza o comércio de fertilizantes, sementes, defensivos e as exportações das commodities agrícolas, é visceralmente capitalista, tocado por um setor da classe burguesa, e tem por base o trabalho assalariado.

Do mesmo modo que o grande capital avança sobre os pequenos capitais urbanos, incorporando-os e aniquilando-os, o grande capital agrário e agrícola, o agronegócio, avança sobre as demais propriedades agrárias, expropriando-as, para concentrar capitais, rendas e terras. Expulsa os pequenos proprietários rurais, e os transforma em posseiros errantes nas regiões de terras devolutas, ou sem-terra acampados à beira das estradas, ou proletários empregados ou desempregados nas cidades.

Nesse sentido, a nova concentração capitalista da terra é muito mais destrutiva da pequena propriedade camponesa do que o “velho latifúndio”, ao aliar a truculência deste “velho latifúndio” aos inúmeros mecanismos de expropriação econômica que o capital lhe proporciona.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *