Bruxas a solta

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Bruxas a solta, jul. 2007.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Bruxas à solta

Num país em que as oposições, de direita ou de ultra-esquerda, parecem não ter bandeiras que mobilizem grandes massas, vaias e palmas, mesmo na abertura de uma competição esportiva, desastres aéreos, e vazamentos de processos de corrupção, talvez se tornem pretextos válidos para mudar o centro da discussão política, e colocar o governo na berlinda.

As oposições, no caso, têm certa razão. Tanto faz que as vaias tenham sido preparadas. Ou que a mídia se esmere em demonstrar que elas se originam de públicos diversificados. O fato é que as vaias ocorreram, e continuam ocorrendo. E, como resultado, a oposição, em especial a de direita, parece estar aprendendo algo que temia como o diabo da cruz: colocar massas nas ruas.

Por outro lado, o governo e seus aliados estão no direito de reclamar das vaias, dizer que elas são fruto da ação das elites, aí incluída a mídia, e também tentar colocar as massas que os apóiam nas ruas. Não por acaso o PT veio a público para afirmar que os proprietários das mídias, e muitos dos seus funcionários, consideram seu o direito criticar, e acusar, mesmo sem provas, mas se sentem ameaçados, toda vez que suas críticas e acusações são rebatidas, ou quando são acusados de irregularidades.

Os petistas acusam a mídia, sobretudo, de tentar responsabilizar o governo Lula por qualquer fato negativo ocorrido na sociedade. No caso do acidente da TAM, em Congonhas, afirmam que, quem quer que se dê ao trabalho de rever o noticiário imediato ao desastre, provavelmente vai se espantar com a certeza como a pauta imposta aos jornalistas apontava o “grooving” como a causa da tragédia. E como essa mesma pauta mandava colocar no mesmo saco de responsabilidades (ou irresponsabilidades) a Anac, Infraero, Aeronáutica, Ministério da Defesa e Planalto.

Reconhecem que, à medida que a complexidade da tragédia apontava para outros fatores causais, a mídia teria feito as inflexões necessárias, mas sem jamais reconhecer a inconsistência de suas certezas iniciais, nem perder o foco de responsabilização do governo pelo caos aéreo. Teria trazido à tona, principalmente, a atenção dada ao “charme” dos aeroportos, ao invés da segurança, seja das pistas, seja dos equipamentos de controle aéreo, seja ainda das áreas de escape, acrescentando sempre que tal inversão seria devido às nomeações “políticas” de “incompetentes” diretores na Anac e Infraero.

Com uma certa dose de razão, questionam o silêncio obsequioso de quase toda a mídia em relação ao passado. Afinal, acrescentam, toda a mídia sabe, desde os anos 1940, que o futuro seria dos aviões de grande porte, exigentes de pistas de pouso e decolagem longas. Ou, desde o final dos anos 1950, que essa exigência obrigaria Congonhas a ser ampliado, impondo a reserva de áreas e o impedimento da construção de prédios, ruas e avenidas no seu entorno original. E que, apesar disso, permitiu-se que a construção urbana ilhasse o aeroporto e erguesse arranha-céus nas rotas das aeronaves que se dirigem a ele, tornando quase impossível o alongamento das pistas e a construção de áreas de escape.

O governo Lula também se defende, dizendo que eram conhecidos os problemas de segurança nos pousos e decolagens de Congonhas quando, nos anos 1990, foi decidido dar prioridade à reforma do terminal de passageiros. Além disso, seria sabido que as aeronaves a jato exigem manutenção preventiva estrita e que, embora “possam” voar só com um dos reversores, e mesmo com apenas um dos motores, não “devam” fazê-lo, principalmente quando pousando em pistas curtas e molhadas. Portanto, tudo indicaria que as companhias aéreas procuravam cobrir suas malhas aéreas sem dar folga às aeronaves, para a manutenção, nem às tripulações, para o descanso.

Somando-se tudo, haveria uma conjugação de fatores de risco que, mais cedo ou mais tarde, com chuva ou sem chuva, com “grooving” ou sem “grooving”, tendia a produzir um desastre de proporções. Embora as oposições reconheçam isso como verdade, mas não o digam, o que lhes interessa é justamente demonstrar que o governo nada fez para desfazer aquela conjugação de fatores de risco. E, sem qualquer pudor, procuram aproveitar-se da tragédia e transformá-la em débitos políticos para o governo, e dividendos para si.

Agora talvez seja tarde para o governo Lula afirmar que, na intenção de realizar uma transição sem saltos, sem olhar para o passado de modo a mirar o futuro, desdenhou as sugestões de realizar uma auditoria da era FHC, no mínimo para comprovar se tinham procedência as denúncias do PT sobre a existência bombas de efeito retardado existentes na infra-estrutura do país. Como não o fez, hoje tem que arcar com o ônus das que já estão explodindo, e ver-se às voltas com bruxas por todo os lados.

Há indícios de bruxas em cada vazamento de processos da Polícia Federal. Elas parecem povoar os entraves burocráticos que impedem ou atrasam as obras de infra-estrutura e de plantas produtivas estratégicas da economia. Muitos dizem que elas gargalham nas repetidas traições de aliados do Planalto no Congresso, e estariam por trás da trama para derrubar o presidente do Senado.

Como o governo parece não acreditar em bruxas, está tentando responsabilizar as elites, aí incluída a mídia, pelas vaias, esforços de desestabilização, e ataques de diferentes ordens que vem sofrendo. Se isso for verdade, deveria deduzir-se que o governo e o PT estão permitindo que as classes médias sejam influenciadas, e ganhas pelas elites, para a oposição. Não é segredo para ninguém que esses setores sociais sentem-se espoliados. Reclamam trabalhar demais para pagar impostos, e não serem beneficiados pelos programas sociais. Afirmam que o governo está arrancando o seu couro para dividir entre os banqueiros e os mais pobres, e se recusam a pagar a conta, que supõem ter que ser paga pelas elites.

Num quadro como esse, as oposições parecem no melhor dos mundos. Podem não ter bandeiras para o futuro, mas talvez tenham encontrado um veio por onde pensam desestabilizar e paralisar o governo. Trabalham para aproveitar-se de qualquer pretexto, mesmo gestos sem importância, para sensibilizar as classes médias, e colocá-las nas ruas em confronto com o governo Lula. Nesse sentido, além de responsabilizá-lo pelo atual caos aéreo, já adiantam que ele é, desde já, o responsável pelos previstos apagões de energia e transportes terrestres.

Mesmo não acreditando em bruxas, talvez o governo e o PT também deixem de acreditar que ataques verbais às elites lhes garantirão o apoio eterno dos pobres, seu principal esteio, e passem a disputar o apoio das classes médias. O problema é que estas camadas sociais pretendem que parte do lucro das elites, e não o seu rendimento suado, seja redistribuído tanto para os pobres, quanto para elas. Portanto, para atendê-las e, ao mesmo tempo, manter o suporte dos pobres, talvez seja preciso muito mais do que palavras ou marketing. Afinal, mesmo não crendo nelas, as bruxas estão à solta.

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