Brasil: ladeira abaixo?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Brasil: ladeira abaixo?, n. 628, 11 nov. 2008.

 

 

Apesar das evidências de que o Brasil reduziu suas vulnerabilidades externas, não são poucos os que acreditam na possibilidade de uma forte desaceleração da economia brasileira. Para eles, sob o governo Lula, o país estaria despencando ladeira abaixo, e sua esperança é que a crise que deve se abater sobre o país não alcance a gravidade da ocorrida entre 1999 e 2002.

O que é um contra-senso, diga-se de passagem. Se o Brasil estiver, como pensam, mais vulnerável estrutural e economicamente, a atual crise deverá rebater com uma violência muito maior do que a de 1999. Diante da presente crise sistêmica internacional, aquela do final do governo FHC não passa de uma ducha de água morna.

Então, uma de duas: ou o Brasil realmente está mais vulnerável, e a crise mundial o levará a uma recessão avassaladora, ou o Brasil está menos vulnerável, e pode-se esperar que uma possível desaceleração do crescimento não signifique uma crise econômica mais profunda. Considerar que o país está mais fragilizado internacionalmente e cairá em recessão e, ao mesmo tempo, supor que isso pode não levar a uma crise de grande profundidade, não passa de jogo de palavras desconexas.

A presente crise mundial não é igual à de 1929, embora seja mais profunda do que aquela, entre outros motivos porque vários países emergentes, entre os quais o Brasil, entraram em rota de crescimento, fortaleceram em certa medida seu mercado interno, transformaram-se em parques industriais e não dependem exclusivamente dos mercados dos países desenvolvidos para manter sua economia funcionando.

O sistema bancário de vários deles, entre os quais o do Brasil, por motivos variados, também não ficou exposto aos papéis lastreados em hipotecas subprime e nem depende totalmente do crédito internacional, podendo manter linhas de crédito para as exportações e para o funcionamento do mercado doméstico.

É verdade que muitos desses países emergentes, aí também o Brasil, se beneficiaram das altas dos preços das commodities, e isso pode produzir problemas para a economia. No entanto, a economia brasileira não depende exclusivamente das commodities, ao contrário de países como a Venezuela, Argentina e Equador. Assim, embora tais produtos respondam por 50% das exportações brasileiras, e o Brasil não esteja livre dos problemas decorrentes da crise sistêmica, também não se pode dizer que este problema vai levá-lo ladeira abaixo.

Em outras palavras, do mesmo modo que o capitalismo não vai desmoronar por causa dessa crise, entre outros motivos porque o Estado dos países centrais está sendo colocado em ação para salvá-lo de sua própria dinâmica caótica, o Brasil e outros países emergentes enfrentarão melhor a crise atual porque seus Estados estão atuando no sentido de reforçar seus mercados domésticos e intensificar suas relações comerciais.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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