Baboseiras políticas

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | Baboseiras políticas, mai. 2000.

 

 

Preparada com informações disponíveis até 05/09/00

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

Baboseiras políticas

Dizem que o presidente Fernando Henrique ficou aliviado com o desempenho de seu homem de ouro na subcomissão que investiga o caso TRT. Ele teria dado respostas precisas e convincentes, embora não se saiba exatamente convincentes para quem. Tanto é que a subcomissão continuou trabalhando, as informações que tem reunido, em particular dos disquetes do próprio ex-secretário geral da presidência, apontam para dificuldades nada agradáveis para o futuro, e parece que o ministro Martus Tavares saiu machucado do declarado constrangimento de ser sabatinado pelos senadores.

Isso não exclui o reconhecimento de que o bloco de sustentação do governo foi competente na montagem da comissão e na preparação do investigado. PFL e PMDB deram-se conta, com rapidez, que poderiam afundar junto com o governo e, independentemente das rusgas e disputas entre si, com o PSDB e o presidente, acharam mais garantido salvar o primeiro mandatário de qualquer constrangimento. É certo que o atestado, que dirigentes de representações empresariais divulgaram, tentando provar a honestidade de FHC, mais pareceu coisa de amador do que da competência profissional comum a pefelistas e peemedebistas. Porém, de qualquer maneira, Fernando Henrique conseguiu respirar aliviado e conquistou certa folga na pressão contra si.

O alívio, porém, não parece condizer com a estrutura de seu governo. Primeiro, porque a fatura da operação salvamento colocou Fernando Henrique refém dos ajustes e desajustes entre o PFL e o PMDB, deixando o PSDB numa situação difícil, agora agravada com o rompimento do PTB. Segundo, porque ele não ficou livre de uma desconfiança generalizada. No pensamento popular, se for verdadeiro o ditado de que basta revirar o angu para encontrar a carne que existe embaixo dele, um simples cochilo dos guardiães governistas da subcomissão, ou uma pequena dissensão entre os aliados no poder, pode alimentar a oposição ou a promotoria pública com munição suficiente para abater o vôo presidencial.

Além disso, o governo parece incapaz de escapar da sina de dar tiro nos próprios pés e gerar 70% das más notícias, mesmo quando o quadro aparenta ser favorável a ele. Parece fadado a criar mais contradições, seja com a oposição, seja com seu próprio bloco, e a aumentar os descontentamentos, insatisfações e dissensões. A rigor, pouca gente acredita que as medidas de contenção de preços sejam para valer, assim como ninguém crê que o plano de segurança tenha algum efeito prático, pelo menos enquanto o juiz Nicolau dos Santos Neto continuar driblando a Polícia Federal e a Interpol. Quem não consegue fazer o menos, como prender um juiz de cara escrachada, dificilmente conseguirá provar que seja capaz de fazer o mais, como aumentar a segurança de toda a sociedade.

Na mesma linha de descrença, navegam o chamado código de ética dos altos funcionários governamentais, as reiteradas promessas de baixar para valer as taxas de juros e elevar as verbas para que os estados ataquem os problemas sociais críticos e debelem a pobreza. Afinal, os preços, em especial as tarifas públicas, teimam em obedecer ao mercado e aos contratos, não há qualquer indício de que o tráfico de influência nos altos escalões tenha arrefecido ou vá arrefecer, as taxas cobradas pelos bancos aos tomadores ignoram olimpicamente as taxas básicas do BC e o ministro Malan já reiterou que não abrirá frestas que ameacem o equilíbrio fiscal.

É bem verdade que o governo tem liberado verbas para os aliados apresentarem serviço antes das eleições, fazendo cair o superávit primário dos três últimos meses. Mas isso talvez não melhore em muito a situação do governo federal, já que cerca de 50% dos eleitores declaram não votar em quem seja apoiado por Fernando Henrique. Temos, então, uma situação em que contingentes consideráveis da população já não acreditam em qualquer medida positiva do chefe do governo e grande parte deles considera que o presidente está apenas tentando fazer jogo de cena e confundir.

Para complicar, Fernando Henrique, Malan e a mídia mais comprometida com o governo resolveram voltar suas baterias contra o plebiscito da dívida externa, a ser realizado no início de setembro pela CNBB, CUT e outros movimentos sociais, com o apoio do PT e outros partidos políticos. Mas, como tudo que fazem, acabaram atirando a esmo e dando ao movimento do plebiscito uma visibilidade e amplitude que até então não tinha conseguido. Nas devidas proporções, o ataque de Malan está tendo um resultado idêntico ao apelo de Collor aos motoristas de táxi, que desencadeou as manifestações populares das tarjas pretas por seu impeachment.

 

Ao escolher o PT como alvo direto e exprimir-se pejorativamente, Malan cometeu não só erros de tática política, como disse baboseiras que estão custando caro ao governo. A não ser que a equipe econômica esteja muito preocupada com as fragilidades dos fundamentos econômicos, a atitude de Malan mais parece de alguém que sequer consegue distinguir o perfil da movimentação, ou que não é informado sobre o assunto pelos órgãos de informação do governo. Se o fosse, saberia que a CNBB está empenhada até a medula e é a principal promotora do evento, com o apoio explícito do Vaticano. Poderia, então, ter deixado de lado termos como baboseiras e besteirol e utilizado palavras mais cuidadosas, para não ferir suscetibilidades de bispos e cardeais e obter algum êxito na projetada manobra de dividir as forças envolvidas, embora o tempo para isso já houvesse se esgotado, desde o momento em que a CNBB e as entidades envolvidas não aceitaram as propostas de adiamento do plebiscito e confirmaram sua realização para a primeira semana de setembro.

Depois, conseguiu alertar até mesmo os segmentos da oposição que estavam pouco empenhados no êxito do plebiscito, ao colocar sobre o PT a responsabilidade política de realizá-lo. Pela reação de seu presidente nacional, agradecendo ao governo, os petistas parecem haver descoberto que conquistaram um instrumento de iniciativa política que há muito desejavam, colocando o governo na defensiva. Dificilmente abandonarão um presente dessa ordem e devem empenhar-se mais do que antes para que o plebiscito tenha uma amplitude maior do que a esperada.

É lógico que, independentemente das fragilidades existentes, não é bem a amplitude da manifestação que preocupa a equipe econômica e Fernando Henrique, e sim o simples fato de que a dívida externa será recolocada em discussão pública num momento sensível para o governo. Maior amplitude apenas poderá aumentar o tamanho do rombo, ao intensificar a rejeição ao presidente, nacionalizar mais as campanhas eleitorais, piorar as projeções sobre o desempenho do PSDB e permitir aos vários partidos de esquerda ampliar sua representação municipal, em particular nas capitais dos estados e grandes cidades.

Não bastasse tudo isso, setembro começa com o STF impondo uma derrota política ao governo na correção do FGTS dos planos Verão e Collor, o anúncio da quebra de safra e da mais do que anunciada crise de energia, a retração do Copom quanto aos juros, as incertezas sobre a volta da aftosa, o Plano Colômbia, a campanha salarial unificada da CUT, a elevação da alíquota do CPMF e o besteirol de 5,57% de aumento para o mínimo em 2001 e de zero de aumento para o funcionalismo pelo sétimo ano consecutivo, atropelando qualquer promessa de aumento das verbas para a área social. Um coquetel suculento para oposição nenhuma deixar de lado na reta final da campanha eleitoral.

Assim, para Fernando Henrique já não será fácil comandar as eleições de 2002 se o PMDB e o PFL forem os grandes vencedores em outubro deste ano. Porém, se se confirmarem as expectativas de vitórias do PT e da esquerda em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém e outras grandes cidades, num impulso idêntico ao de 1988, o governo FHC não terá apenas a aparência de haver terminado. Ele se tornará simplesmente uma pedra que atrapalha, mas que todos, inclusive seus aliados, apenas tolerarão em virtude do calendário para a disputa que vai escolher aqueles que a tirarão do caminho. E isso, em grande parte, pelas baboseiras políticas de sua própria equipe.

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