As chuvas de março

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | As chuvas de março, mar. 2002.

 

 

Preparada com informações disponíveis até 09/04/02

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

As chuvas de março

Do ponto de vista estritamente meteorológico, março parece haver fugido às regras das chuvas de transição do verão para o outono, apesar dos temporais que costumaram paralisar São Paulo. Do ponto de vista político, no entanto, as “chuvas” desse mês foram avassaladoras.

Começaram com a decisão do Planalto de sagrar Serra candidato, e de fazê-lo entrar na disputa antes do que desejava. Adensaram-se com as tentativas do PT aliar-se ao PL e cooptar o senador José Alencar como vice de Lula. Tornaram-se tempestade com as mudanças nas regras eleitorais pelo TSE, deixando os partidos e os candidatos momentaneamente à deriva. Transformaram-se em tormenta e tromba d’água com a ação da PF nos escritórios do marido de Roseana, o desembarque dos pefelistas do governo e as acusações de que Serra e o tucanato estariam por trás da desestabilização espúria da candidatura Roseana.

Passado o momento mais caudaloso, restou um cenário de escombros. O PFL e sua candidata parecem os maiores atingidos. Primeiro, porque a filha do senador Sarney, que pretendia apresentar-se como candidata de um amplo espectro de forças, dissimulando sua ligação com o PFL e sua participação no governo FHC, teve que apresentar-se sem disfarces. Segundo, porque o PFL, ou pelo menos sua banda mais em evidência, teve que romper com FHC e abandonar os postos no governo, perdendo alguns dos instrumentos de poder que tão bem utilizava nas campanhas eleitorais. Terceiro, porque, associada a prováveis desvios de recursos da SUDAM, aquela imagem do 1,3 milhão de reais, por mais que não seja ilegal possuir dinheiro em cofre, teve e terá um efeito devastador toda vez que for publicada.

Serra e o PSDB pensaram-se a salvo. Porém, as crescentes desconfianças de que a família Sarney foi vítima de uma trama sinistra, urdida no ministério da Saúde, com o conhecimento e o beneplácito de FHC (até os santos desconfiam quando há coincidências em demasia), respingam sobre o candidato oficial. Por isso, cada vez mais, talvez Serra se aventure na difícil trilha de distanciar-se da “continuidade”, procurando apresentar o rompimento com o PFL como ruptura com a “banda podre e conservadora” do governo FHC.

Numa jogada inteligente, mas cheia de armadilhas, procura dizer ao eleitorado que, agora sim, colocará em prática os planos “sociais” do tucanato socialdemocrata. Talvez ainda por isso, as negociações com Jarbas Vasconcelos e Itamar Franco tenham evoluído tanto. Serra precisa garantir não só a aliança com o PMDB, como principalmente com aquela parte desse partido que dissentia de FHC, para legitimar sua diferenciação do governo ao qual serviu fielmente durante sete anos.

Para isso, Serra conta com as contradições do próprio PMDB. Atraídos pela possibilidade de ocupar a vice na chapa do PSDB, ambos os lados desse partido, que se digladiavam entre ter ou não ter candidato próprio à presidência, arriaram armas e bandeiras de combate e se jogaram de ponta cabeça nas negociações de cúpula para ocupar a vaga que antes pertencia ao PFL. Uns, sonhando aproximar-se um período de crescimento longo da economia, qualquer que seja o governo a ser eleito, que permita uma melhor distribuição do bolo entre as diversas facções empresariais e políticas, tanto maior quanto melhor a posição que seus representantes ocuparem no aparelho de Estado. Outros, simplesmente pensando que o melhor é estar no governo, qualquer que seja o período econômico e qualquer que seja a política econômica. Assim, quase num passe de mágica, o que prenunciava um racha irremediável, parece resolver-se na tradicional conciliação em torno das benesses do poder.

Já Garotinho, no PSB, continua envolvido pelas dificuldades em garantir alianças que permitam viabilidade aos candidatos estaduais do partido a governador, senador e deputado. Estes vislumbram numa aliança com o PT a possibilidade de vitória majoritária em alguns estados, assim como a manutenção de sua representação parlamentar. No entanto, o governador do Rio de Janeiro parece decidido a manter sua candidatura e a descarregar suas baterias contra o PT e Lula como principais adversários, estimulado por sua performance nas pesquisas eleitorais e por razões que a simples razão talvez desconheça. Em outras palavras, Garotinho não parece preocupado em queimar as pontes de suas relações com Lula e o PT.

Ciro Gomes e sua aliança tripartite, por outro lado, embora pareça consolidado em sua candidatura e aparentemente não tenha sido abalado pelas “chuvas” políticas de março (seus baixos índices de preferência eleitoral continuaram estabilizados), parece enfrentar problemas crescentes com o desejo do PTB em puxar o PFL para a aliança, na expectativa de reforçar os palanques estaduais. Apesar de Brizola e o PDT haverem se mostrado sensíveis a tal proposta, Ciro e o PPS parecem considerar que o apoio do partido de ACM e Bornhausen esteja mais para abraço de tamanduá do que para afago de aliado.

E o PT, após ver praticamente inviabilizada a coligação com o PL, em virtude das regras definidas pelo TSE, e haver oficializado Lula nas prévias partidárias, continua operando no sentido de articular um arco mínimo de alianças. Busca atrair o PSB, apesar da resistência acirrada de Garotinho, e ainda nutre esperanças de atrair o apoio do PL e de setores do PMDB, embora esse apoio, como as alianças que projetara, pareçam água es-correndo pelos dedos da mão.

As definições nesse quadro ainda dependem de fatores externos aos candidatos. Com as novas regras “camaroneiras” estipuladas pelo TSE para as coligações estaduais dos partidos sem candidatos à presidência, contrariando sua própria decisão de verticalização, a mexida vai ser ainda maior do que a anterior. E, embora esteja fora de cogitação que o Congresso aprove algum decreto legislativo revogando as decisões do TSE, ainda está em pauta o julgamento do STF sobre a inconstitucionalidade de tais decisões, fazendo com que permaneça no ar um clima de incerteza.

Além disso, aquelas definições dependem, e muito, de que o surgimento de novas manobras escusas contra um e outro candidato, não tenha sua origem enxergada no Planalto ou na cúpula do PSDB. Pelo discurso do ex-presidente Sarney no Senado, com fortes acusações diretas a Serra e a FHC, e pelas declarações de Lula, ambos prevendo a “campanha mais suja da história brasileira”, o ambiente se encontra devidamente carregado de materiais explosivos, apesar da proposta do candidato de Serra, de “uma campanha de alto nível”.

Nessas condições, afora os problemas continuados no Congresso, para o andamento dos projetos governamentais, inclusive a aprovação da CPMF, é previsível esperar mudanças, até de vulto, no quadro eleitoral. Quem acha que Roseana está enterrada, talvez tenha surpresas. Quem supõe que Serra se consolidou e que o governo não precisa mais apelar para “ações extraordinárias”, talvez tenha que rever tais previsões. Quem acredita que Garotinho sairá do páreo para salvar o PSB, talvez tenha que reavaliar sua opinião sobre esse que parecia um outsider político sem futuro. Quem prevê que Ciro manterá sua aliança tripartite, talvez tenha que relembrar o que é realmente o PTB. Quem crê que Lula conseguirá ampliar seu arco de alianças, talvez tenha que se contentar com a coligação PT-PCdoB. E quem espera que as chuvas de março tenham passado, talvez se veja molhado por grandes tempestades, pelo menos políticas.

 

 

 

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