Ainda sobre Gaza

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ainda sobre Gaza, n. 641, 20 fev. 2009.

 

 

Como vimos no comentário anterior, mesmo que os argumentos dos defensores da ação do Estado de Israel contra Gaza e os palestinos fossem verdadeiros, eles não justificariam a agressão, nem o massacre da população civil.

Outro problema consiste em que boa parte desses argumentos não é verdadeira. As “razões históricas” são extremamente polêmicas, e talvez devessem ser deixadas de lado, se houver a intenção de chegar a uma paz duradoura. Hoje, apenas os judeus fundamentalistas (e é certo que os há), e os desavisados ou desinformados, as defendem. E, do mesmo modo que a maioria dos israelitas, a maioria dos palestinos não é fundamentalista, nem terrorista.

É certo que a maior parte do mundo árabe ainda oprime as mulheres, da mesma forma que os norte-americanos oprimiam os negros até os anos 1960, os australianos oprimiam os aborígenes até os anos 1970 e os brancos da África do Sul oprimiam os negros até bem menos tempo.

Mas, que se saiba, isso jamais foi argumento para justificar bombardeios aéreos e invasão de tanques. E, se o não-reconhecimento da existência de um Estado por outro fosse argumento justo para a guerra, os palestinos teriam o direito de invadir Israel, já que este também não reconhece o direito de existência de um Estado palestino.

O pior de tudo é que, com o uso de argumentos tão pouco consistentes, o governo de Israel está paulatinamente impondo a seu povo os mesmos males que os nazistas impuseram ao povo alemão. A cada aventura militar do Estado israelense contra os palestinos, sua portentosa capacidade bélica torna-se mais duvidosa e seu isolamento político internacional cresce. E isso, diga-se de passagem, mesmo considerando que tais aventuras se dirigiram contra forças que, teoricamente, não gozam de reconhecimento internacional, como o Hizbollah e o Hamas.

Esses insucessos, aliados aos gastos exorbitantes das guerras, mesmo “curtas”, tornam evidente que armas inteligentes, espionagem e interferência nas políticas internas palestinas não resolvem um problema que não diz apenas respeito ao Hamas, ao Fatah e a outros grupos, terroristas ou não, mas a um povo inteiro. E, se não há a intenção de eliminar tal povo da face da Terra, a única arma viável é a política da negociação, que conduza ao reconhecimento, tanto do Estado de Israel, quanto de um Estado Palestino, independentemente da existência e da ação de grupos terroristas como o Hamas.

Nas recentes eleições, onde os partidos que defendem o reconhecimento de um Estado palestino foram proibidos de participar, o povo israelense parece não haver conseguido impor esta compreensão a seu governo, como condição para a conquista de uma paz duradoura. A consolidação da direita política em Israel é a vitória da política das armas. E, quando tal política fala mais alto, a democracia pode transformar-se em seu contrário, com resultados impensáveis.

Diante disso, infelizmente, mais cedo ou mais tarde, o povo israelita pode se ver, num sarcasmo trágico da história, diante dos mesmos dissabores e frustrações com os quais o povo alemão se confrontou, como conseqüência do terrorismo de Estado do governo nazista.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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