A sorte está lançada

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | A sorte está lançada, ago. 2005.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

A sorte está lançada

O mês de agosto de 2005, como muitos outros Agostos da história brasileira, assistiu a alguns momentos políticos que pareciam ultrapassar os limites da crise, especialmente se nos ativermos apenas às manchetes das principais revistas e jornais brasileiros.

No entanto, há indícios de que tais momentos, como as tentativas de envolvimento do ministro Palloci na rede de irregularidades cometidas por alguns dirigentes petistas, representaram o pico das manobras dos setores mais extremados da oposição para chegar ao impeachment do presidente Lula. À medida que esses setores são obrigados a trazer à tona, na CPI dos Bingos, matérias requentadas do tipo Santo André, e procuram atingir o presidente através de acusações contra seu chefe de gabinete, uma das últimas pessoas que qualquer delírio insano arrolaria em alguma situação irregular, isso pode significar que esgotaram-se as armas de efeito letal que faziam parte do arsenal desses setores.

Tal não significa, porém, que a oposição vai recuar e abandonar essas táticas mais extremadas. Mesmo não sendo letais, os torpedos que possui talvez ainda continuem causando distúrbios e instabilidades, de certo modo contribuindo para a tática geral oposicionista de desestabilizar o governo, mantê-lo paralisado e encurralá-lo até o final do mandato, como parece ser a inflexão tática que toma o presidente da Câmara como alvo principal.

É possível que isso dê certo se o PT não conseguir voltar a agir como partido de sustentação do governo, nem passar à contra-ofensiva no terreno político. O que depende, em grande medida, do processo eleitoral direto do PT, para a escolha de seu novo presidente e de suas novas direções estaduais e nacional. A primeira rodada desse processo realiza-se no dia 18 de setembro. Mesmo que seus resultados imponham uma segunda rodada para a definição do novo presidente do partido, já será possível ter uma idéia mais clara das tendências predominantes entre a militância. Não será difícil deduzir como o PT deverá orientar-se no futuro, seja diante de seus problemas internos, seja diante dos problemas políticos que envolvem a ação do governo e a ação parlamentar do partido.

Internamente, a questão chave é a decisão relacionada aos dirigentes que cometeram irregularidades políticas, um julgamento político que não pode  ser confundido com o julgamento civil e penal nas CPI’s, na polícia federal e na justiça. Embora o julgamento interno possa até resultar em processos penais, se ficar demonstrado que a gestão partidária dos dirigentes acusados conteve algum tipo de ação criminosa contra o próprio partido, no momento ela ainda está nos limites da decisão política.

Se a tendência predominante apontar para a continuidade do apaziguamento, como praticado na reunião de 3 de setembro, na qual o diretório nacional do PT foi incapaz de reiterar sua disposição de expulsar Delúbio Soares, mesmo tendo que acatar uma liminar judicial, é possível que o processo de desmanche do partido assuma um caráter avassalador. Tal continuidade representará a vitória do antigo grupo dirigente. Este poderá até fazer algum movimento de falsa retirada, para iludir parcelas da militância petista menos informada, mas continuará, como antes, dando as cartas e determinando as políticas do PT.

Se, por outro lado, a tendência predominante apontar para o fim do apaziguamento diante daquele grupo de dirigentes, ainda assim é possível que o PT sofra perdas se a vitória não couber às correntes de ultra-esquerda. A correlação de forças internas no PT não indica a possibilidade de vitória dessas correntes e é provável que algumas de suas parcelas se retirem do partido. Também haverá perdas pelo lado oposto, à direita. A expulsão e punição de vários dos dirigentes envolvidos nos escândalos políticos tornar-se-á uma certeza, e alguns deles tenderão a deixar o partido antes que as decisões ocorram, a exemplo do que já fez Sílvio Pereira. Isso desorganizará o antigo grupo dirigente e reduzirá sua influência sobre a política partidária.

Do ponto de vista do governo Lula, a vitória do apaziguamento e a continuidade do poder do antigo grupo dirigente, pode ser benéfica no sentido de evitar qualquer crítica efetiva à política econômica e social do governo. Porém, pode ser extremamente negativa diante do esvaziamento que causará às fileiras petistas e à credibilidade pública do partido. Além disso, dificilmente a nova direção continuista conseguirá resolver o sério problema da dissolução do arco de alianças que sustentava o governo no parlamento, um dos principais pilares políticos da antiga direção e da crise que se abateu sobre o PT.

A política de construção desse arco de alianças, para garantir a maioria parlamentar e, supostamente, a governabilidade, ia da direita e da centro-direita (PP, PTB, PL e parte do PMDB), passava pelo centro (parte do PMDB) e chegava à centro-esquerda  e à esquerda (PPS, PDT, PV, PSB, PCdoB e PT). Ela já vinha sendo sangrada pela defecção do PPS, PDT e PV. Agora, com a desagregação do PP, PTB e PL, dá seus suspiros finais e está afundando com desonra.

Talvez o máximo que a nova direção petista possa fazer seja a manutenção da aliança com os partidos de esquerda e o estabelecimento de uma política de unidade e luta com um reforçado PMDB. No entanto, essa missão parece impossível para uma direção petista que carregue o estigma do antigo grupo dirigente, de incompetência, autoritarismo e trapalhada, além da suspeição de frouxidão na condenação dos negócios espúrios envolvendo dirigentes. Os prejuízos dessa impotência parlamentar e política da nova direção sobre o governo Lula podem não ser uma Katrina, mas certamente serão fortes. Principalmente porque o PT terá que se manter permanentemente da defensiva diante dos ataques do PSDB e do PFL.

Por outro lado, ainda do ponto de vista do governo Lula, a vitória das correntes petistas que pretendem dar fim ao apaziguamento pode ser negativa no sentido de que a nova direção elevará a pressão para introduzir mudanças na política econômica. Não é previsível que proponha qualquer ruptura com o rigor fiscal e com o controle inflacionário. Mas é previsível que realize uma ação persistente pela redução das taxas de juros, por negociações mais firmes com o sistema financeiro, pelo controle dos capitais voláteis, pela maior atração de investimentos diretos, e pelo aumento das taxas de investimentos, seja em infra-estrutura, seja nas políticas sociais e na reforma agrária.

Se depender dessa nova direção, o atual presidente do Banco Central receberá passe de saída e o ministro Palloci terá que se submeter à disciplina partidária. Ao contrário dos mandarins da atual política econômica, as forças que comporão essa direção, que dará fim ao apaziguamento, não consideram sólidos os fundamentos da economia. Para elas, com baixas taxas de investimentos, a economia brasileira ainda apresenta elos muito fracos diante de qualquer instabilidade internacional mais forte.

Por outro lado, essa nova direção pode ser politicamente benéfica para o governo Lula, na medida em que seu acerto de contas com o antigo grupo dirigente lhe permitirá resgatar parte da credibilidade perdida e passar à contra-ofensiva política. Certamente não haverá qualquer tentativa de reconstruir o antigo arco de alianças, nem tampouco salvar o PP, PTB e PL. Mas é quase certo que haverá movimentos para consolidar as alianças com os partidos de esquerda e de centro esquerda em torno de propostas políticas comuns. E que, sem qualquer rabo preso, os novos dirigentes poderão retomar as ações que deram tanto renome ao PT, quando era minoria no Congresso, dividindo o campo inimigo para obter vitórias parciais ou impedir derrotas. Nesse sentido, PSDB e PFL terão que se preparar para explicar porque colocaram Severino Cabral na presidência da Câmara e agora estão batalhando para tirá-lo.

Qualquer que seja o resultado da reestruturação interna do PT, Alea jacta est!

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *