A questão industrial

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | A questão industrial, n. 775, 21 set. 2011.

 

 

 

Embora, aqui e ali, alguns membros do governo e de seus partidos de sustentação, assim como alguns economistas, falem na necessidade de fortalecer a indústria brasileira, na verdade eles a tratam como mais uma das diversas questões econômicas do desenvolvimento e da ampliação do mercado interno. Mesmo o PT sequer a colocou, em seu último congresso, entre as questões de fundo da sociedade brasileira, quando ela deveria ser tomada como aquela capaz de puxar todas as demais.

 

A indústria ainda continua sendo o principal elemento de geração de riqueza. Todos os países que alcançaram altos níveis de emprego, mercados internos pujantes e redução da pobreza – e que desenvolveram alta capacidade científica e tecnológica e altos patamares educacionais – só o conseguiram com base na riqueza gerada pela indústria.

 

A atual crise dos países capitalistas desenvolvidos tem raiz, em grande medida, no processo de desindustrialização que esses países sofreram, em virtude da segmentação capitalista global, em busca de altas taxas de lucro. Seus governantes e seus povos também acreditaram que o mundo estava ingressando, com a nova revolução tecnológica, numa era pós-industrial.

 

Na verdade, a indústria mudou de localização. E, aqueles países que entenderam seu papel, emergiram muito rapidamente como potências econômicas, gerando riquezas que lhes permitem avançar na solução de seus problemas sociais e ambientais, além de escaparem da dependência a que estavam submetidos diante das antigas potências industriais. O que reduziu, em grande medida, o fluxo de riquezas para tais potências.

 

O agravamento dos problemas estruturais da desindustrialização das antigas potências capitalistas está levando-as a tentativas perigosas de estabelecer novos tipos de exploração dos países pouco industrializados, inclusive através de intervenção militar direta, como são os casos dos Estados Unidos, no Iraque, e da Inglaterra e França, na Líbia.

 

O tipo de relação que a União Européia está tentando impor aos países africanos, do Caribe e do Pacífico, através do Acordo de Coconut, também é um bom exemplo da tentativa de resolver os problemas de sua desindustrialização através de formas não-econômicas. Tudo isso recoloca, para os países não-industrializados e de industrialização incompleta, a questão de tomarem como prioridade, em seu caminho de desenvolvimento, a construção de indústrias fortes.

 

No caso do Brasil, tivemos um forte desenvolvimento industrial até os anos 1970, apesar das lacunas importantes que suas cadeias produtivas continuaram apresentando, a exemplo da fabricação de máquinas pesadas e de equipamentos e componentes eletrônicos. A maior parte de sua indústria estava em mãos de capitalistas privados, alguns de seus principais setores pertenciam a capitalistas privados estrangeiros, mas os capitais estatais tinham presença em algumas áreas estratégicas.

 

Os anos 1970 e 1980, que se seguiram às crises do petróleo, foram de relativa estagnação, enquanto os anos 1990 foram de destruição de grande parte do parque industrial. Especialmente indústrias de porte médio e pequeno foram fechadas e sucateadas, e inúmeras empresas estatais foram financeiramente saneadas para serem vendidas a preços irrisórios, principalmente para empresas estrangeiras. O Brasil sofreu uma grave reversão industrial e tecnológica, embora a luta democrática e popular tenha impedido a venda dos principais bancos estatais, da Petrobras e das empresas do grupo Eletrobras.

 

Essa situação começou a ser superada a partir do governo Lula, e continua durante o governo Dilma. Porém, esse processo de superação parece ter como defeito o fato de a industrialização não ser tomada como a questão central do desenvolvimento. Parecemos não ter consciência das cadeias produtivas e serem adensadas. E não parece estar na pauta da sociedade a construção de sistemas de parques industriais de alta tecnologia, que possam aproveitar plenamente as ciências e as tecnologias como as principais forças produtivas da atualidade.

 

A reconstrução e construção da infra-estrutura industrial parecem mover-se conforme os ventos dos interesses regionais e localizados. E certamente não temos uma política de atração de capitais externos que defina claramente os investimentos a serem estimulados, assim como aqueles que devem ser restringidos e proibidos.

 

Sem um processo firme de industrialização não construiremos um mercado interno forte, não conseguiremos promover o pleno emprego, não teremos recursos suficientes para liquidar a miséria, nem reduzir a pobreza e as desigualdades. É ilusão supor que, com uma indústria oligopolizada e cheia de lacunas, poderemos elevar nossa capacidade científica e tecnológica, universalizar a educação e dar solução aos demais problemas sociais e ambientais que ainda afligem a sociedade brasileira.

 

É verdade que os surtos históricos de industrialização brasileira do passado também tiveram como produto maléfico o aumento, num pólo, da concentração de renda e, no outro, da pobreza e da miséria. Mas, além disso, eeas resultaram na criação e fortalecimento da classe dos trabalhadores assalariados, cujas lutas foram essenciais para conquistas cumulativas de maiores direitos democráticos, conquistas que culminaram na criação do PT e nas eleições do primeiro presidente operário e da primeira presidenta.

 

Portanto, bem vistas as coisas, a industrialização deve ser vista não apenas como fundamental para a solução das questões econômicas e sociais e para um desenvolvimento inclusivo, mas também para novos avanços na democratização da sociedade e do Estado.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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