A quem interessa

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | A quem interessa, jun. 2007.

 

 

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

A quem interessa?

A agonia que paralisa o Senado parece não ter fim. Ao processo contra o presidente da casa, Renan Calheiros, juntaram-se denúncias contra o senador Joaquim Roriz, que acabou renunciando, para não passar pela sangria do Conselho de Ética.

Independentemente das acusações serem verdadeiras ou não, o que mais impressiona no processo de cerco ao senador Renan é que a paranóia da inversão da prova, que transgride o sistema jurídico brasileiro, parece não mais ser levada em conta apenas por jornalistas despreparados, mas também por parlamentares das mais diferentes correntes. Em parte, o próprio senador contribuiu para isso. Em seu afã de tentar demonstrar inocência, apresentou documentos, que o levaram a assumir o ônus da prova. Ao puxar o fio que lhe atiraram, acabou por tecer a teia em que agora está sendo enredado.

Por outro lado, como nada é fortuito, é difícil imaginar que a revista Veja tenha montado gratuitamente essa armação contra o senador, principalmente se levarmos em conta que ambos, o senador e os donos de Veja, transitam na mesma camada social. A quem interessa derrubar o senador Renan da presidência do Senado, neste momento? Será o senador o alvo real? Ou ele é apenas um alvo secundário, através do qual o interessado, ou os interessados, pretendem atingir o alvo principal? E que alvo seria esse?

Já que, em termos estritos, estamos navegando por uma novela político-policial, na qual a Polícia Federal e, parece, o Ministério Público, se acham no direito de vazar acusações, sem necessidade da apresentação das provas correspondentes, torna-se necessário também raciocinar em termos policiais, além dos políticos.

O senador Renan desempenhou papel importante na costura que levou o PMDB a unificar-se no apoio ao governo. É verdade que ele não foi o único, e que a peça principal nesse jogo foi o próprio presidente Lula, que se dispôs a fazer concessões no limite do quase impossível. Mas não há dúvidas de que, tanto por estar na presidência do Senado, quanto por ter influência numa forte ala do PMDB, o senador tem alta cota de responsabilidade. Se quisesse, poderia ter embaralhado o meio de campo e evitado que a antiga ala oposicionista do seu partido tivesse participação no governo. Portanto, é difícil supor que o senador Calheiros esteja sendo bombardeado por “fogo amigo” de seus antigos desafetos do PMDB.

Por outro lado, a fome dos peemedebistas por cargos tem agastado outros aliados do governo, como PT, PSB, PCdoB, PRB, PTB, PDT e PP. A eles interessaria abater o presidente do Senado, criando uma crise política, apenas para espremer o espaço do PMDB no governo? No início do processo contra o senador, a imprensa chegou a noticiar a sua desconfiança de que estaria havendo “fogo amigo” de um desses partidos da base governista, sendo o PT o mais provável candidato.

Essa suposição foi sendo descartada no curso dos acontecimentos, seja porque todos esses partidos mostraram-se cautelosos na abordagem do caso (apesar dos “aloprados” e “moralistas” incrustados nuns e noutros), seja porque eles têm, em geral, defendido que as provas devem ser apresentadas por quem acusa. Assim, apesar de alguns dos membros desses partidos manterem relações com Veja, e outros estejam pressionando o senador a licenciar-se da presidência da casa até o final do processo, ou mesmo renunciar, não parecem existir indícios consistentes de que qualquer deles esteja interessado na agonia do senador Renan. Por outro lado, embora não se deva descartar liminarmente que um deles possa ter sido o instrumento da acusação, também não se deve desprezar a necessidade de investigar os partidos da oposição, PSDB e PFL, digo, DEM, e PSOL.

O PSDB parece ser o mais cauteloso dos três, embora os seus “radicais” estejam desejosos de aproveitar-se da oportunidade, não só para dar um golpe de morte no PMDB, mas principalmente no governo. No DEM também existem alas e posições diferenciadas no tratamento do caso, embora sejam os “radicais” os que estão dando o tom da posição do partido. E o PSOL não poderia, de forma alguma, deixar passar o momento para trazer à tona, com toda a força, seu moralismo udenista.

No entanto, mesmo considerando que os partidos oposicionistas tenham todo interesse na agonia e queda do senador Calheiros da presidência do Senado, e por mais que também não se possa descartar liminarmente que algum de seus membros tenha participado da armação de Veja, não há indícios seguros de que tal participação tenha ocorrido. Os partidos oposicionistas parecem tão surpresos quanto os demais. Sua decisão de tirar dividendos do caso, mesmo às custas do sistema jurídico do ônus da prova, está dentro das regras oportunistas e de vale tudo do jogo político brasileiro.

As pesquisas solicitadas pelos partidos de oposição, para aferir a popularidade do governo e do presidente Lula, estão dentro desse quadro de oportunismo político. Se elas houvessem demonstrado que governo e presidente da República estavam sendo atingidos pelos estilhaços dos bombardeios contra Renan Calheiros, não resta qualquer dúvida de que a oposição iria mover céus e terras para transformar em crise política as supostas ligações espúrias do senador com o presidente e o governo.

Como as pesquisas mostraram que o prestígio do presidente continua alto e inabalado, e que, na base da sociedade, existe a percepção de que o mar de corrupção que está vindo à tona é mais fruto de administrações passadas do que desta, a oposição está tendo que refazer os planos mais radicais e cair na realidade, pelo menos em relação ao executivo.

Assim, descartados, mesmo com ressalvas, os atores partidários, e as possibilidades de utilizar, contra o governo, as acusações ao senador Renan, quais forças sociais Veja representaria na ação-tentativa de derrubar o presidente do Senado? O argumento simplório de que são as mesmas forças sociais difusas, dispostas a combater a ferro e fogo a corrupção, talvez não suporte um fraco sopro de honestidade sobre o festival de hipocrisia que a mídia tem trazido a público, mesmo cobrindo o rosto dessa hipocrisia com a falsa mascara da sinceridade.

Uma investigação das notas e recibos de venda de gado no Brasil, incluindo o gado dos demais parlamentares pecuaristas, encontraria o mesmo mar de incoerência das notas da fazenda do senador Renan, sem que isso signifique que os pecuaristas, parlamentares ou não, estejam a serviço de lobistas de grandes empresas. Significaria, apenas, que a economia formal se vê diante da imperiosa necessidade de negociar com a “economia informal” que grassa no país. E nos deixaria ainda sem resposta à questão chave de quem é o interessado, e por que.

A não ser, é lógico, que toda essa confusão esteja destinada a desviar a atenção da necessidade de realizar justamente aquilo que os repetidos casos de corrupção têm colocado em evidência: a reforma política. Se for isso, estão conseguindo.

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