A campanha já começou

Rosenberg Consultoria – Carta Mensal

WPO | ART | RCO | A campanha já começou, jan. 2001.

 

 

Preparada com informações disponíveis até 07/02/01

COMENTÁRIOS POLÍTICOS

Por Wladimir Pomar

Consultor político, foi membro do diretório nacional e da comissão executiva nacional do PT e coordenador geral da campanha Lula-presidente em 1989.

O conteúdo expressa a opinião pessoal do autor, não necessariamente endossada pela ROSENBERG & ASSOCIADOS

 

A campanha já começou

Por mais que as forças políticas afirmem que as eleições de 2002 são assunto para o final de 2001, todas elas já estão empenhadas em conquistar posições e definir candidaturas, a exemplo da disputa em torno das presidências da Câmara e do Senado. Essa disputa transformou-se numa guerra de posições, na qual baixos recursos têm sido empregados em profusão, paralisando a votação dos projetos de interesse do governo e causando na base de sustentação de FHC uma fissura difícil de soldar, mesmo que o PFL tenha recuado de sua repentina tendência oposicionista e não prospere sua aproximação tática ao PT.

O conflito por posições, com vistas a 2002, foi desencadeado pela estratégia de Covas, que estimulou o PSDB a atropelar o PFL, tornar-se o maior partido da Câmara, aliar-se ao PMDB e dividir com este a presidência das casas do Congresso. Apesar da oposição de FHC, e de sua própria doença, Covas tornou-se o principal articulador das ações que deveriam permitir ao PSDB conquistar posições fora do governo para apresentar uma candidatura imediata à presidência, supostamente Tasso Jereissati.

Paralelamente, essa estratégia jogou Tasso e Serra, embora neguem, em campanha desabalada por sua indicação no PSDB. E suas ações, assim como das correntes que os apoiam, passaram a ser pautadas por essa disputa, que pode distanciar os dois das diretivas e projetos do governo e de FHC, na medida em que tais diretivas e projetos se chocarem com suas pretensões eleitorais. O surto oposicionista de Inocêncio de Oliveira e as vacilações de Aécio Neves, ante projetos caros ao governo, foram apenas uma amostra do que pode ocorrer no futuro com os postulantes à presidência da República.

Essas mudanças nos cenários políticos e a briga de foice na aliança governista podem empurrar o PFL para uma candidadura própria e descolada do governo, se isto se tornar um problema de sobrevivência política, mesmo que esse partido não tenha um nome nacional forte e sua preferência ainda seja compor-se com o PSDB. O PMDB, por seu lado, apesar da composição com o PSDB e suposta fidelidade a FHC, foi mais longe, lançando desde logo o nome do senador Pedro Simon como boi de piranha, um nome respeitável que tanto pode ser usado como moeda de troca, quanto como instrumento de disputa.

Os mesmos movimentos para consolidar candidaturas ocorrem no PDT, no PSB e nos agrupamentos que cercam o governador Itamar Franco. Ninguém desses segmentos políticos pensa em outra coisa. A disputa de 2002 pauta todas suas conversas e ações, embora aí muita coisa dependa da decisão do PT. Com as vitórias de 2000, o PT pode consolidar uma máquina de âmbito nacional capaz de sustentar uma campanha de amplitude superior às de 1989, 94 e 98.

As lideranças desse partido estão otimistas com o quadro que se arma para 2002, mesmo levando em conta que a situação econômica pode alterar-se e beneficiar uma candidatura governista e que a aliança de centro-esquerda no primeiro turno dificilmente passará de um sonho. Os partidos que apoiaram Lula no primeiro turno em 1989, 1994 e 1998 trabalham para ter seus próprios candidatos, o que talvez esteja levando o PT e Lula a retardarem ao máximo sua decisão.

Se Lula quiser ser candidato, é provável que seja. Mas o senador Suplicy quer ser o candidato do PT, o diretório nacional do partido aceitou sua inscrição e o estatuto do partido é claro: quando há mais de um pretendente, realizam-se prévias. Assim, a menos que um deles desista, haverá uma prévia, aumentando as dúvidas sobre uma quarta candidatura de Lula. Para complicar o quadro interno no PT, os argumentos de Suplicy foram introduzidos pelo próprio Lula, em 1997, quando tentou convencer o PT a escolher outro candidato, defendendo o lançamento de uma candidatura “mais ampla”, inclusive de fora do PT, com base na “rejeição” a seu nome e seu “teto de votos”. Suplicy tem se apresentado como mais amplo do que Lula, qualidade fundamental numa conjuntura em que o PT pode ficar isolado.

Suplicy também está propondo a realização de uma “primária” entre os partidos de oposição. Cada um indicaria um ou vários pré-candidatos, a serem submetidos ao voto dos filiados, ou de todo e qualquer cidadão. Esta proposta também partiu do próprio Lula, em 1997. Assim, Suplicy pode surpreender porque existe de uma certa fadiga nas bases do PT em relação à candidatura Lula. Alguns preferem outro candidato, uns achando Lula muito moderado e outros, ao contrário, considerando-o pouco amplo. Mas, os motivos são tão variados, que Suplicy também pode não se beneficiar do voto de todos os que gostariam de outro candidato. A maior parte da esquerda do PT, por exemplo, numa disputa entre os dois, votaria em Lula.

Lula pode, porém, não querer disputar a prévia e Suplicy, que não parece disposto a retirar-se, seria candidato por falta de concorrente. No caso de aparecer outro pré-candidato em lugar de Lula, Suplicy poderia beneficiar-se de uma pressão, de fora para dentro, a favor de um candidato “light” e derrotá-lo. Suplicy pode, ainda, vencer Lula se ganhar a simpatia da base partidária com a idéia de que veio para arejar e está sendo vítima da burocracia partidária. Em qualquer dos casos, e mesmo que perca a prévia para Lula, Suplicy nada tem a perder.

O ex-governador Cristovam Buarque, defensor de que o PT não mude a política econômica de FHC, dando-se conta da complexidade do quadro, já comunicou à direção do PT que não disputará a prévia contra Lula, podendo porém disputá-la contra Suplicy. Cristovam não acha  ula o melhor candidato. Mas, não quer correr o risco de ganhar contra Lula e derrotar o mito, o que considera um desastre. Na verdade, Cristovam quer que o mito derrote a si mesmo, seja assumindo os riscos da quarta candidatura, seja desistindo dela. Ou, então, permitindo uma prévia “de idéias”, para a escolha do programa do PT na disputa presidencial. Desse modo, Cristovam disputaria a prévia com suas idéias, sem correr o risco de ser derrotado.

Há outros cenários possíveis. O diretório nacional do PT poderia revogar a prévia, mas isto teria enorme repercussão negativa. Mantida a prévia, resta a alternativa de que seja construído um movimento de base em defesa da candidatura Lula, em disputa com Suplicy, com as possibilidades já apontadas. Pode também ocorrer a inscrição de outros candidatos, tanto da esquerda, quanto da direita petista. Isto poderia levar Lula a desistir, ou ao contrário esvaziar a polarização artificial entre Suplicy e Lula, criando as condições para que o próprio Lula surja como “tertius”.

O cenário mais provável é que Lula disputa e vença a prévia, tranqüilizando os que querem uma retaguarda para suas pretensões eleitorais nos estados. Mas isso não significa que tal cenário seja o definitivo. O certo é que o PT terá um candidato próprio, e que suas chances dependerão, e muito, do próprio candidato. Também é certo que ela dependerá do quadro político geral; da evolução da economia, nacional e internacional; da unificação ou não da base governista; dos candidatos dessa base, unificada ou dividida; duma possível mobilização social nos próximos dois anos; do desempenho dos governos estaduais e municipais petistas; e, ainda, da formulação, pelo PT, de um programa de governo que conquiste o apoio e a adesão da maior parte do eleitorado.

Como este último ponto, ao contrário da maioria dos demais, depende do candidato, o cenário que comporta outros candidatos à prévia, além de Lula e Suplicy, pode ser uma imposição àqueles que pretendem debater temas que consideram essenciais para o país. Isto é verdadeiro tanto para Cristovam Buarque como para a esquerda do PT.

Qualquer que seja o caso, porém, tanto para o PT, quanto para as outras siglas partidárias, a campanha presidencial já está nas ruas. O resto não passa de diversionismo.

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