Voltando às origens ludistas?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Voltando às origens ludistas?, n. 491, 18 mar. 2006.

 

 

Para comprovar quão confusa está se tornando a luta pelo socialismo no Brasil, nesta última semana, tivemos a notícia da destruição de instalações, experimentos científicos e mudas arbóreas de um núcleo tecnológico da empresa Aracruz, no Rio Grande do Sul.

Os socialistas do século 19 já haviam se diferenciado dos ludistas (operários têxteis que quebravam as máquinas, por considerarem que elas eram as responsáveis por seus sofrimentos), ao estabelecer que, na luta contra o capitalismo, os avanços técnicos e os produtos desse capitalismo deveriam ser preservados. Consideravam, corretamente, que eram justamente esses meios técnicos e produtos que iriam permitir aos trabalhadores viver com dignidade, quando tomassem posse deles como proprietários sociais. A luta socialista transferiu-se, então, da luta contra os avanços técnicos e os produtos capitalistas para o combate pela transformação da propriedade privada do capital em propriedade social.

Apesar de mais de 150 anos de luta de classe entre trabalhadores e capitalistas, das experiências derrotadas dos países socialistas do leste, e das retiradas estratégicas da China, Vietnã e Cuba, aquela transformação ainda não ocorreu, e enfrenta problemas de novo tipo no estágio atual de desenvolvimento capitalista. A exploração da força de trabalho, assim como a situação de miserabilidade do exército industrial de reserva na maior parte do mundo, tem aumentado. O fosso que separa a riqueza e a pobreza está chegando a extremos insuportáveis. Portanto, não são surpresa as explosões dos imigrantes na França e outros países europeus, a disseminação do fundamentalismo islâmico anti-ocidental e aparentemente anti-capitalista, e manifestações de retorno às origens ludistas, como a do Rio Grande do Sul.

Porém, seria uma insensatez confundir a compreensão das causas dessas explosões com o apoio a elas. A história tem mostrado que, se essas manifestações não forem substituídas por formas de organização e de luta que se dirijam para resolver a velha e persistente contradição entre a propriedade privada dos meios de produção e a produção social desses meios, o único resultado previsível, do ponto de vista social e político, é o reforçamento da ideologia capitalista e dos meios de coerção do Estado, contra as reivindicações e lutas dos trabalhadores. Ao invés de acúmulo de forças, repressão e dispersão.

Pensar nessas coisas é tanto mais necessário, do ponto de vista imediato, quando ao mesmo tempo chega a notícia de que o PSDB conseguiu chegar a um acordo sobre a estratégia que vai utilizar contra o governo Lula. Por um lado, Alckmin com promessas de desenvolvimento, renda, emprego etc. De outro, Jereissati, Serra, FHC, PFL, batendo pesado na corrupção e o que mais seja. Polarização total. E não adianta dizer que se pode ficar isento disso, evitando alianças espúrias. Basta dizer que o inimigo é Lula e o PT para definir de que lado está.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *