Voltando à China

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Voltando à China, n. 398, 15 mai. 2004.

 

 

Os jornais não passam um dia sequer sem falar da preocupação dos mercados com o “desaquecimento chinês”. Todos eles, invariavelmente, aproveitam-se para martelar os surrados chavões sobre os “100 milhões de agricultores” e “dezenas de milhões” de desempregados urbanos. Ou sobre a “ausência de liberdades democráticas”, em contraste com a explosiva “expansão capitalista”, também em contraste com o “planejamento centralizado”. E, ainda, sobre os “débitos podres”, que corresponderiam a 30% do PIB.

Desvinculando-se da realidade essa baboseira ideológica, deve-se reconhecer que a China enfrenta uma crise. Trata-se, porém, de uma crise de crescimento demasiadamente rápido. Embora desde a crise asiática de 1997 a China tenha se esforçado em crescer a uma taxa média “moderadamente rápida” de 6% a 7% ao ano, o melhor que ela conseguiu foi reduzir o crescimento para 7,8%, em 2000. Nos demais anos, as taxas foram superiores a 8% e, neste ano, atingiram 9,7% no primeiro trimestre.

Isso tensiona a infra-estrutura de energia, transportes e telecomunicações, pressiona o consumo de água e madeiras, e tende a elevar os preços. Crise idêntica ocorreu em 1993-94, e pouca gente no mundo prestou atenção a ela. A China não possuía, então, o peso internacional que possui hoje. E os que se impressionam com o que está, agora, acontecendo lá não conhecem, ou desdenham, a experiência dos chineses em tratar sua economia. Sequer levam em conta que o sistema financeiro vem sendo saneado há tempos, com a criação de empresas de administração de ativos e a liquidação dos débitos podres.

Por isso mesmo, boa parte dos analistas acredita que o desaquecimento chinês não será trágico. A diminuição de suas importações pode ter o condão de manter estáveis as cotações das commodities agrícolas e minerais e, até mesmo, de retardar a elevação dos juros americanos. Além disso, tendo que reduzir o montante de seus investimentos internos e com enormes reservas de moedas fortes disponíveis, os chineses terão, necessariamente, que investir em países como o Brasil, com os quais possuem complementaridades e com os quais precisam estabelecer parcerias estratégicas.

A visita do presidente Lula à China realiza-se, assim, num momento muito favorável. Os chineses possuem hoje, além de forças produtivas poderosas em ciências, tecnologias, máquinas e equipamentos, algo mais que pode contribuir para o Brasil desobstruir seus gargalos em infra-estrutura e adensar suas cadeias produtivas: capitais. Só depende de nós ajudar os chineses a reduzir seus riscos, fazendo-os ajudar-nos a elevar nossas taxas de investimento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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