Viva o crescimento

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Viva o crescimento, n. 426, 04 dez. 2004.

 

 

As informações econômicas indicam que o Brasil deve chegar, no final de 2004, com uma taxa de crescimento de 5%. Muita surpresa para alguns. Nenhuma surpresa para quem já vinha apontando para essa possibilidade há algum tempo. De qualquer modo, viva o crescimento!

No entanto, é preciso considerar que há várias ponderações a respeito. A primeira, a daqueles que consideram tal crescimento como resultado dos acertos da política econômica e da solidez dos fundamentos econômicos do país. Para estes, trata-se de manter inalterado tudo que se fez até o momento ou apenas introduzir leves reajustes pontuais.

A segunda considera que o atual crescimento tem algo a ver com os processos cíclicos da economia brasileira, com as condições relativamente favoráveis dos mercados internacionais nos últimos dois anos, aproveitados principalmente pelo agronegócio, no primeiro momento, e com o uso da capacidade instalada ociosa da indústria nacional. E teria muito pouco a ver com a elevação das taxas de investimento (que não ultrapassaram 21% do PIB).

Pondera-se, ainda, que o desemprego foi apenas em parte reduzido e que o crescimento da massa salarial não foi capaz de impedir a queda da renda dos trabalhadores e de seu poder de compra. Teríamos, então, um crescimento do tipo clássico brasileiro, acompanhado não da erradicação da pobreza, mas de sua manutenção.

Se a segunda e a terceira ponderação forem pertinentes, como parecem ser pelos indicadores econômicos, as comemorações sobre o crescimento não devem empanar a realidade, nem deixar de lado as medidas necessárias para que se alcance um crescimento verdadeiramente sustentável, só possível com taxas de investimento público e privado bem mais elevadas e com os trabalhadores e as classes médias detentoras de um poder de compra maior.

Isto é, necessitamos investimentos bem maiores em infra-estrutura e nos setores produtivos com forte demanda nos mercados internos e externos. E de apoio que vá muito além do atual projeto de micro-crédito e permita transformar as atuais micro e pequenas empresas brasileiras em fortes instrumentos para a redução do desemprego e para elevar a oferta de bens de consumo de massa. Sem isso, corremos o risco de assistir ao presente crescimento esgotar-se nos limites da capacidade produtiva instalada e nos limites do reduzido poder de compra atual dos trabalhadores e das classes médias.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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