Visitando a Ásia (4)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Visitando a Ásia (4), n. 279, 19 jan. 2002.

 

 

Vietnã: Renovação

Durante os anos 70 e 80, o Vietnã viveu um longo período de escassez de alimentos, de estagnação econômica e de inflação. As reformas microeconômicas, introduzidas na agricultura e na indústria desde os anos 60, não conseguiram evitar os desarranjos decorrentes da economia de comando, ou centralmente planificada. Entretanto, a amplitude que as experimentações de base conquistaram no início dos anos 80, como os “planos de contrato”, “o arrendamento de terras”, o “sistema de preço único” e o “fim dos subsídios” nas cooperativas, que introduziam elementos de mercado naquela economia, prepararam o terreno para as reformas subseqüentes.

Essas reformas, ou a política de Renovação (dói mói) vietnamita, tiveram início em 1986. Elas compreenderam a substituição da economia centralmente planificada pela economia de mercado sob gestão estatal, o desenvolvimento e diversificação das relações econômicas internacionais e a reforma da administração estatal. Elas incluíram ainda o desenvolvimento legal do setor privado, da concorrência do trabalho e da possibilidade de falência.

Mas a crise soviética, associada ao embargo norte-americano, representaram um pesado contigenciamento ao desenvolvimento econômico interno, obrigando o Vietnã a avançar mais ainda em sua política de Renovação. Em 1989 foram introduzidas uma série de reformas macroeconômicas, compreendendo o cancelamento de todos os subsídios diretos e a adoção do sistema de preços pelo mercado, a desvalorização da moeda e a unificação das diferentes taxas de câmbio, através da fixação oficial de uma taxa flutuante, o estabelecimento de um sistema bancário de dois níveis, a introdução de taxas de juros realistas, a liberalização do comércio doméstico, com a permissão do aluguel de terra para construção e do comércio de ouro e jóias e a redução das tarifas sobre as importações comerciais e não-comerciais.

Essas medidas libertaram o comércio externo do monopólio estatal, tornaram-no mais aberto e diversificado, permitiram incrementar o suprimento do mercado doméstico e as exportações e reduzir drasticamente a inflação. Tudo isso desempenhou um papel fundamental para fazer com que os vietnamitas pudessem superar com certa rapidez as conseqüências do colapso da União Soviética, seu principal parceiro comercial, em 1991. Nos dez anos seguintes, pela primeira vez em sua história socialista, o Vietnã conseguiu cumprir integralmente seus planos qüinqüenais, alcançando uma taxa anual média de crescimento superior a 8%, contra 5% nos anos 80.

Atualmente o Vietnã mantém laços comerciais com mais de 100 países e territórios, incluindo os EUA. Seu volume de exportações já é superior a US$ 12 bilhões e o fluxo de investimentos estrangeiros diretos no país está perto dos US$ 4 bilhões anuais. Embora 78% da população continue dedicada aos trabalhos agrícolas, a participação da indústria no produto interno bruto já é de 41%.

Desse modo, o Vietnã passou a participar da lista dos poucos países do mundo que reformaram sua economia, ao mesmo tempo que asseguraram um crescimento sustentado. Porém, a despeito dos progressos obtidos em seu desenvolvimento, o Vietnã permanece como um dos países mais pobres do mundo, com uma economia ainda voltada fundamentalmente para a exploração de seus recursos naturais. Seus desafios são imensos, principalmente se tomarmos em consideração a presente recessão mundial e o rufar dos tambores da guerra.

China e Vietnã na competição internacional

A China e o Vietnã sofreram o impacto negativo da recessão mundial em suas exportações, mas não há nada que indique que ambos pretendam arrefecer suas relações internacionais e seu intercâmbio com o resto do mundo. A China tem como certo que seu crescimento sustentado se transformará num atrativo inigualável para os capitais estrangeiros em busca de aplicação, enquanto o Vietnã se considera o lugar mais seguro do mundo, na atualidade, para investimentos e aplicações econômicas, graças a sua estabilidade social e política.

Antes da cúpula da APEC, realizada em outubro de 2001, os chineses esperavam que os investimentos diretos em sua economia chegassem a US$ 41 bilhões em 2001, mas tinham dúvidas sobre os anos seguintes. As decisões dessa cúpula – Acordo de Shanghai, proposta de nova rodada multilateral de comércio na OMC e reiteração das Metas de Bogor (livre comércio dos membros da APEC entre 2010 e 2020) -, além da aprovação de nova rodada multilateral de comércio na OMC, em Doha, logo depois, reforçaram as expectativas positivas. O Conselho de Cooperação Econômica da APEC estima que essas medidas podem gerar US$ 600 bilhões adicionais no comércio mundial e incrementar os investimentos externos na Ásia durante os próximos anos. A China prevê que os investimentos externos em sua economia se elevarão US$ 65 bilhões em 2005, enquanto o Vietnã também aguarda aportes significativos.

Tanto a China quanto o Vietnã acreditam que a presença de ambos como membros da OMC pode contribuir para aumentar sua inserção no mercado mundial de capitais e mercadorias e intensificar sua integração com os países do leste asiático, inclusive ajudando-os em sua recuperação econômica, à medida que mantêm sua estabilidade social e seu crescimento sustentado. Eles também consideram que a participação na OMC evitará as retaliações que sofriam por não serem membros daquele organismo.

Enquanto o Vietnã ainda desenvolve esforços para ser aceito na OMC, a China conseguiu ver coroadas de êxito suas tratativas de 15 anos de negociação e preparação interna para ingressar naquele organismo internacional, sendo aceita como membro efetivo na reunião de Doha. Os chineses não escondem que alguns setores de sua economia vão sofrer uma concorrência feroz, mas consideram que possuem vantagens comparativas em muitos outros setores e estão seguros de que o risco terá mais vantagens do que desvantagens.

A China e o Vietnã não têm qualquer ilusão na OMC. Avaliam que esta, até agora, tem sido um clube dominado pelas nações desenvolvidas. Mas, ao contrário dos que querem evitar esses aspectos negativos tentando eliminar a OMC, propõem-se a lutar por reformas nessa organização multilateral, através da ação comum das nações atrasadas e em desenvolvimento, com vistas a estabelecer uma nova ordem econômica mundial. Eles estão convencidos de que somente integrando-se ao processo de globalização os países em desenvolvimento podem obter oportunidades para o seu próprio desenvolvimento, contrapondo-se às suas desvantagens e aspectos negativos.

Os 20 anos de desenvolvimento econômico e social da China e os 10 anos de desenvolvimento do Vietnã, assim como a conquista da nova rodada multilateral de comércio, na reunião de Doha, parecem dar alguma razão aos chineses e vietnamitas. No entanto, muita água ainda correrá sob as pontes antes de sabermos na prática como evoluirá o mundo sob o impacto da presente recessão global e dos desdobramentos da guerra contra o terrorismo e dos conflitos regionais, principalmente na Ásia Central e no Oriente Médio.

 

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