Visitando a Ásia (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Visitando a Ásia (3), n. 276, 22 dez. 2001.

 

 

Vietnã –  Pequeno esboço

Para minha geração, que acompanhou e se solidarizou, mesmo de longe, com a luta dos vietmins contra os franceses, entre 1948 e 1954, e dos viecongs contra os norte-americanos, entre 1964 e 1973, conflitos que simbolizaram durante muito tempo a luta de libertação de todos os povos oprimidos, visitar aquele pequeno país do sudeste asiático tem um significado todo especial, seja por sua história recente, seja por seu passado mais remoto, de mais de 3 mil anos.

Os 80 milhões de vietnamitas, que compreendem a etnia viet e mais 55 outras, apertados numa superfície de 332 mil km2 (quase a mesma de Mato Grosso do Sul), jamais se abateram diante dos desafios externos e internos que tiveram que enfrentar. Na antigüidade foram invadidos pelos indianos e depois pelos chineses, que estabeleceram seu domínio sobre o território por cerca de mil anos. Entre o século 19 e o 20, viveram 80 anos sob a colonização francesa. Durante a II Guerra Mundial foram ocupados pelo Japão e, depois da guerra, voltaram a ser invadidos pelos franceses e, mais tarde, pelos Estados Unidos.

Para conservar sua cultura e construir sua nação, os vietnamitas tiveram que sacrificar sucessivas gerações e pagar um preço muito elevado em vidas humanas e bens materiais. Assim, quando derrotaram as tropas norte-americanas, conquistaram a paz e reunificaram o país, em meados dos anos 70, a construção da sociedade socialista era um sonho que viam materializar-se através do exemplo da União Soviética. Esta mostrara ser possível tirar uma nação do atraso e da pobreza e construir uma nova sociedade.

Por isso, e pelo apoio durante os 30 anos de guerra de libertação, a URSS exercia forte influência sobre o Vietnã. O modelo de construção econômica era o mesmo e, logo após a guerra, mais de 90% da economia vietnamita dependia do comércio com  os soviéticos. Nessas condições, quando a União Soviética entrou em colapso, em 1991, a situação econômica e política do Vietnã também se tornou muito difícil, apesar das reformas que já vinha adotando desde 1981 e, particularmente, desde 1986. Muitos dos antigos combatentes se perguntaram como um sistema social e político como o soviético, com mais de 70 anos e inúmeras conquistas, poderia fracassar daquele modo.

Eles relatam que já não sabiam como o movimento operário mundial ia desenvolver-se ou se o socialismo era viável ou não. A crise de confiança alastrou-se e obrigou-os a um longo processo de debate sobre o modelo soviético e as vias de construção do socialismo. Concluíram que o soviético era um modelo específico entre vários modelos ou vias socialistas. Sua queda estaria relacionada com erros de direção, em especial na construção econômica, estagnação do trabalho político, papel negativo de algumas personalidades com cargos importantes e com a intervenção do imperialismo.

A política adotada pelo Vietnã para superar sua crise política e resolver, a médio e longo prazos, seus históricos problemas econômicos e sociais, a Renovação, surgiu ainda durante a glasnost e a perestroika de Gorbachev. Porém, diferentemente destas, que utilizavam a modificação política como base para a continuidade da construção socialista, o Vietnã tomou as mudanças econômicas como base. O desenvolvimento econômico passou a ser a tarefa principal, aquela que poderia criar as condições para as demais mudanças. O fracasso das políticas de Gorbachev, em 1991, e o sucesso de seu próprio crescimento econômico e social, apenas reforçaram nos vietnamitas a suposição de que seu caminho de reformas era mais adequado para renovar e construir o socialismo.

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