Vias e desvios

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Vias e desvios, n. 169, 20 nov. 1999.

 

 

Não há quem não sugira vias para resolver os problemas dos países e dos povos. Entretanto, mais parecem desvios do que caminhos. Na primeira via capitalista, há os desvios liberais políticos, liberais econômicos, liberais em tudo, estatistas, e por aí afora. Na segunda via socialista, além dos revolucionários, há os social-democratas e matizes para todo gosto. Agora, surge uma terceira via, que não quer ser capitalista nem socialista.

Há quem tenha descoberto que a terceira via dos países ricos não pode ser igual à terceira via dos países pobres e já proponha uma sexta via, ou algo assim. Temos, pois, que quem chegar à encruzilhada de tantas vias e desvios certamente ficará atônito.

No final dos anos 80 e início dos 90, tudo parecia mais fácil. O socialismo parecia ter vindo abaixo e o capitalismo alcançado o triunfo total. O desvio neoliberal decretara o fim da história, tornara a única superpotência sobrante, os EUA, guardiã global absoluta, e se autoproclamara a via larga da felicidade, das oportunidades infinitas e da paz duradoura.

Mas não passaram dez anos para os povos começarem a se dar conta de que estavam comendo gato por lebre. Em vez de riqueza, pobreza. Em vez de abundância, fome. Em lugar de trabalho, desemprego. Em vez de paz, guerra por toda parte. No mundo atual só pipocam desgraças. Até a natureza se rebela, com sucessivos terremotos, tufões, enchentes, o diabo!

Os problemas humanos que deram origem ao socialismo, em vez de solucionados pelo desvio neoliberal, agravaram-se. A tal ponto que até a nata pensante do FMI e do Banco Mundial quer que a gente acredite que suas equipes estão cada vez mais contra o neoliberalismo, contra o pensamento único, contra a expansão das máfias do narcotráfico, contra os juros escorchantes, contra a especulação financeira, pela liberdade, pela democracia etc etc.

Tudo politicamente correto. Mas nada de ser contra o funcionamento do capitalismo, que ninguém é de ferro para ir às raízes. Melhor criar um terceiro desvio, com variantes para o mundo rico e o mundo pobre, que vá pingando migalhas aqui e acolá e continue espalhando a esperança de que a felicidade, apesar de tudo, está ao alcance de todos.

Que os despossuídos ainda acreditem nesse conto de fadas, é explicável. Mas que políticos de esquerda se deixem embalar por ele, aí já é demais.

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