Ventos de esquerda

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ventos de esquerda, n. 485, 04 fev. 2006.

 

 

Há uma certa perplexidade com os ventos de esquerda que parecem soprar na América do Sul. Setores da grande imprensa alardeiam o perigo do exemplo de Chávez ser seguido. Outros fazem questão de acentuar as diferenças entre Chávez, num extremo, e Bachelet, Vasquez e Lula, no outro, deixando Kirchner e Evo Morales num centro indefinido. Aliás, avaliação idêntica à de certos segmentos de esquerda, que acusam alguns desses governantes de não serem suficientemente radicais e socialistas.

Talvez essa seja uma boa ocasião para debater seriamente o que significa ser radical e socialista em países como Venezuela, Bolívia e Uruguai, onde as forças produtivas são muito pouco desenvolvidas, e mesmo no Chile, Argentina e Brasil, onde tais forças de produção têm algum desenvolvimento, mas ainda estão longe de alcançar um estágio avançado. Ou seja, o que significa ser radical e socialista em países onde o capitalismo ainda não esgotou todas as suas possibilidades e, ao mesmo tempo, demonstra incapacidade para realizar seu próprio desenvolvimento autônomo?

Há os que pensam que o essencial, em tais condições, seria que esses governos expressassem sua adesão às opções radicais e socialistas, proclamando o projeto de substituir o capitalismo pelo socialismo. Isso, mesmo que, nas disputas eleitorais em que conquistaram o governo, não tenham prometido nada parecido com a substituição do regime capitalista pelo socialista.

Talvez se esqueçam que, em tais países, não ocorreu qualquer revolução, embora as vitórias de Lula e Morales estejam envoltas num forte simbolismo e novidade históricos. E que, entre a oratória revolucionária e socialista e a frágil realidade econômica e social capitalista de alguns desses países, existe um fosso. Fosso que só pode ser superado com muita dificuldade e, por paradoxal que pareça, como a experiência mostrou, não somente com a ação das formas sociais de propriedade, mas também com o auxílio das formas privadas de propriedade, incluindo aí a propriedade capitalista.

Não por acaso, apesar da retórica revolucionária, não se tem notícia de que na Venezuela estejam sendo liquidadas as formas privadas de propriedade. Ao contrário, se forem consistentes as notícias sobre o processo de reforma agrária naquele país, haverá uma expansão das formas privadas de propriedade, através de sua democratização. Em outras palavras, na América do Sul, mesmo governos declaradamente socialistas vão precisar conviver durante um tempo indefinido com formas de propriedade privada, inclusive capitalistas, para desenvolver as forças produtivas e retirar seus países do atraso e da miséria. Deixarão de ser socialistas por isso?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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