Vencedores e derrotados

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Vencedores e derrotados, n. 472, 29 out. 2005.

 

 

Meu medo em relação a alguns democratas é que, para eles, a democracia só existe quando vencem. Quando perdem, acusam os vencedores de haver manipulado a população, os filiados, ou seja lá o que for. Nada muito diferente do que fazem alguns setores da esquerda, para os quais as manobras e os atos escusos dos adversários são sempre os culpados de suas derrotas. Ambos têm em comum a ausência de espírito auto-crítico.

Agora mesmo, como resultado do processo de eleição direta do PT, é possível verificar o quanto alguns democratas o estão abominando, a pretexto do uso de votos de cabresto, compra de votos e outros atos que teriam manchado irremediavelmente o PED como exercício democrático. Concluem, daí, que o fato de mais de 300 mil militantes terem participado da votação no primeiro turno, e mais de 200 mil no segundo, apesar do desestímulo massacrante da imprensa, não teria significado positivo algum.

Na mesma trilha seguem alguns setores da esquerda, quando alegam que o campo majoritário do PT venceu, ao obter 42% dos votos para o diretório nacional do partido. Para eles, isso significa que esse campo continuará dando as cartas e nada mudará no PT. Primeiro, porque uma parte das forças que disputou as eleições em oposição ao campo majoritário fazia parte dele anteriormente. Segundo, porque outra parte dessas forças já havia se composto com o campo majoritário, ao aceitar a idéia da reeleição de Lula.

Em ambos os casos, temos exemplos graves de miopia política. Dos mais de 300 mil votantes do primeiro turno, cerca de 180 mil depositaram seus votos nas forças que, declaradamente, queriam derrotar o campo majoritário. E, mesmo entre os cerca de 120 mil que votaram no campo majoritário, os casos envolvendo irregularidades foram pouco significativos. Como é possível jogar algo tão expressivo no lixo?

Além disso, desconsiderar o racha que acometeu o campo majoritário, e pensar que esse racha acabou, é o mesmo que acreditar que a crise política vai virar piada. Essa visão curta certamente contribuiu para que uma parte da militância, que votou na oposição no primeiro turno, não comparecesse ao segundo turno.

Aqui cabe uma pergunta: se toda a oposição tivesse se empenhado, em conjunto, no segundo turno, ela teria sido ou não capaz de suplantar os pouco mais de seis mil votos que separaram os dois candidatos, e eleger o novo presidente do PT? Bem vistas as coisas, não foi a antiga situação que elegeu Berzoini. Foi a oposição ao campo majoritário que não elegeu Pont. Quando um dos lados não sabe vencer, não adianta culpar os adversários pela derrota.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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