Uma velha história

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Uma velha história, n. 354, 12 jul. 2003.

 

 

Essa conversa de que a reforma agrária é uma necessidade, mas deve ser feita ordeira e pacificamente, e não apenas dando a terra nua aos lavradores assentados, mas garantindo-lhes condições reais de vida, por meio de assistência técnica, creditícia e comercial, é uma velha história, de bem mais de século. Infelizmente, com essa conversa, jamais tivemos reforma agrária.

Na história da ausência de reforma agrária no Brasil, as fronteiras agrícolas foram expandidas por posseiros, lavradores sem-terra que, mesmo sem qualquer recurso, enfrentavam a terra bruta. Não tinham assistência técnica, nem créditos. A não ser, a bem da verdade, o “crédito” dos comerciantes, que lhes “forneciam” ferramentas, mantimentos, querosene, sabão e remédios, para a sobrevivência, enquanto a safra não chegava.

No acerto de contas na colheita, arrancavam a pele e o tutano dos lavradores. Cobravam-lhes preços e juros exorbitantes pelos “fornecimentos”. E lhes pagavam preços ínfimos pelos produtos colhidos e recebidos como paga. Mesmo assim, os posseiros produziam e sobreviviam. E só não cresciam e criavam raízes porque, logo depois das primeiras safras, vinham os grileiros e os pecuaristas, com as sementes de capim e o gado, que os enxotavam para mais adiante.

Diante dessa experiência, não tem sentido a idéia de que, entre um milhão de assentados em condições precárias e dez mil em condições favoráveis, seria melhor assentar apenas os dez mil. Tal idéia faz parte, sem dúvida, daquela velha história. É idéia de quem desconhece a verdade comezinha de que, por mais precária que seja a situação de um assentado, ela será mil vezes melhor do que a situação de um sem-terra à beira de uma estrada.

Eis porque, diante dos últimos acontecimentos envolvendo os sem-terra, e das brutais desinformações a respeito deles, talvez seja necessário relembrar esses fatos singelos para afirmar que não é mais possível repetir aquela velha história. O problema dos sem-terra não é um problema do MST. É um problema da nação. É um problema do desespero de milhares ou milhões de brasileiros que foram totalmente enxotados das terras e querem trabalhar e produzir, pelo menos para sua subsistência. E, num país que utiliza apenas 100 milhões de seus 360 milhões de hectares de terras agricultáveis, esse problema só existe pela absurda concentração da terra em poucas mãos.

Se há limitações de recursos, em virtude da herança macabra do governo FHC, há também esse desespero. Desespero que, para manter a estabilidade social, pode obrigar o governo a gastar mais do que gastaria em assentamentos. Então, talvez tenha chegado o momento de realizar a reforma agrária ordeira e pacífica, mas efetiva, descobrindo formas alternativas de assentamento, com base na própria experiência histórica de expansão das fronteiras agrícolas pelos antigos posseiros. O resto, é história velha.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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