Uma questão de paternidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Uma questão de paternidade, n. 214, s/d.

 

 

FHC se diz feliz com as eleições porque o PT não teria conseguido federalizar as questões nacionais. Os analistas da grande imprensa, por seu turno, se esforçam para demonstrar que o voto não teria sido de protesto, apenas uma busca dos cidadãos por bons administradores. O PT só teria vencido por apresentar propostas moderadas, viáveis, e aceitáveis pela maioria das comunidades. Prova? Os prefeitos que teriam garantido a reeleição com a força de sua austeridade e sensibilidade social.

Em resumo, os assuntos locais teriam sido os mais importantes. Rejeição à política econômica, às medidas antipopulares (fim das multas rescisórias pagas aos trabalhadores, aumento irrisório do salário mínimo em 2001, correção trimestral dos preços da energia e anúncio de aumento dos combustíveis), ou às medidas eleitoreiras (correção dos saldos do FGTS, liberação de verbas a candidatos oficiais etc.) do governo federal e governos estaduais aliados – nada disso teria influenciado os resultados eleitorais. Qualquer análise que insinue mudanças na correlação de forças, ou uma ação mais ofensiva dos municípios em relação ao governo federal, não passaria de bobagem, como costuma dizer FHC.

Só um estúpido diria que os problemas locais não eram importantes nas eleições de 2000. Mas será preciso ser ainda mais estúpido para assegurar que os problemas nacionais e as políticas federais não tiveram qualquer influência sobre elas. Da mesma forma que o vento das ilusões nas excelências políticas de FHC sopraram favoravelmente sobre os candidatos oficiais nas eleições de 1996, os ventos das ilusões perdidas sopraram favoravelmente sobre as oposições no pleito atual.

Mas o estado maior da guerra psicológica dominante pretende que o PT e a esquerda não assimilem o simbolismo principal de seu crescimento e do deslocamento do eleitorado para a esquerda, nestas eleições. Nada de crer que 2000 foi uma reedição de 1988, nem esforçar-se para uma reedição melhorada e ampliada de 1989 em 2002! Que todos se voltem para resolver os problemas de suas comunidades, para as experiências locais de desenvolvimento, para seus programas de bolsa-escola, renda-mínima, infra-estrutura urbana, atração de investimentos, principalmente agora que o FMI e o Banco Mundial resolveram purgar seus pecados! Deixemos os problemas nacionais para serem discutidos em 2002, mesmo porque só quem demonstrar capacidade administrativa municipal pode disputar com chance a presidência!

Esta é a linha pós eleitoral de mandatários e escribas do poder. O grande problema é que a reestruturação econômica e social, norteadora da presente política nacional, tem mais capacidade para gerar desemprego, exclusão e destruição do que os municípios mais fortes em criar empregos, inclusão e construção. Para fazer o mínimo nas comunidades, as prefeituras terão que enfrentar as grandes questões nacionais. O resto é debater-se sem rumo. Nesse sentido, FHC tem razão: quem federalizou essas questões não foi o PT, foi ele.

 

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