Uma medalha para Alvarez

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Uma medalha para Alvarez, n.171, 30 nov. 1999.

 

 

Os homens no poder desse nosso país dos bruzundangas não costumam dizer o que realmente pensam, a não ser em momentos de improviso displicente, como ocorre com o primeiro mandatário. Eles costumam cercar seu pensamento real de véus e maquiagem, para fazer o que querem em benefício dos seus, levando os demais a supor que o farão em benefício de todos. Criam uma imagem, que nada tem a ver com a verdadeira, para melhor ludibriar e iludir. São mestres do ilusionismo.

O diretor do Banco Central, Luís Carlos Alvarez, quebrou essa tradição. Escolhido por seus pares para defender o banco das acusações da CPI do sistema financeiro, desnudou-se, mostrou-se pelo avesso, sem pudor. Trouxe à tona, sob a artificialidade do palavreado técnico bestialógico, toda a mediocridade, inépcia, flacidez de caráter e má-fé que costumam mascarar a arrogância que caracteriza a personalidade da atual intelectualidade no poder.

Responsável pela área de Fiscalização do BC, cuja irresponsabilidade e promiscuidade com o dinheiro dominante, em detrimento de toda a sociedade, ficaram mais do que demonstradas nas conclusões da CPI, não apresentou qualquer argumento consistente para justificar os atos do governo, que torrou mais de 30 bilhões de dólares para salvar bancos e financeiras sem idoneidade.

Com olhar baço, sorriso retardado e linguagem chula, fez o que nenhum de seus colegas de mandarinato bancário teria a empáfia de fazer. Chamou de m… e lixo o relatório da CPI. Tratou o Congresso como costuma tratar a coisa pública e a população bruzundangas: como parte desprezível e irrrelevante da propriedade corporativa dos donos do dinheiro.

Se sua empáfia foi burra ou simplesmente atrevida, pouco importa. Mostrou o que é, o que pensa e o que faz no poder. Ao contrário dos demais e de seu chefe nacional. Ao contrário do capo empavonado, mas subserviente à matriz nortenha, que diz e se desdiz a cada momento, e nunca perde o cinismo ao culpar os devedores por sua inadimplência, os aposentados pela quebradeira do país, os funcionários pela falência dos serviços públicos, a enxaqueca pela violência nacional, e a esquerda por um Estado autoritário, de democracia fictícia, que jamais criou e sempre a perseguiu.

Se o governo a que Alvarez pertencia tivesse um lampejo de sinceridade, um milésimo de segundo de transparência, teria lhe dado uma comenda. Mas Alvarez inflingiu a lei do cinismo dessa máfia, dessa cosa nostra. Foi demitido com desonra. A esperança é que nem tudo esteja perdido. Ainda está em funcionamento a CPI do crime organizado. Ela bem poderia dar-lhe uma medalha e colocá-lo no programa de proteção a testemunhas.

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