Uma doença mortal

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Uma doença mortal, n. 188, 04 abr. 2000.

 

 

Há pelo menos três aspectos do que vem ocorrendo no Rio de Janeiro, com o governo Garotinho, que vale a pena destacar. O primeiro diz respeito a uma herança que recebeu das administrações passadas, de uma máquina governamental falida, podre, mais esburacada do que queijo suíço e explodindo por todos os lados. O segundo, ao fato de que o que acontece no Rio de Janeiro não é meramente local. Ganha repercussão nacional, seja pela importância do estado, seja pelo histórico de luta de sua população. E o terceiro, à circunstância de que Garotinho foi eleito em aliança com o PT e com o compromisso de atacar os problemas mais sérios que o estado herdara e com os quais se debate.

Assim, nada de estranho que a chamada banda podre (não só da polícia, mas de toda a máquina administrativa, judiciária e legislativa) tenha vindo à tona. Ela está presente em todos os estados brasileiros e sua desenvoltura é tão acintosa que pode ser facilmente descoberta, seja pela ação de CPIs, seja pela atitude das nicéias da vida, seja pela denúncia da banda sã, ou pela ação direta do governo ou da promotoria.

No caso específico do Rio de Janeiro, o achincalhe dessa banda que tresanda é antigo, conhecido e propalado. Há uma simbiose de altos e baixos escalões da polícia e do judiciário com o tráfico de drogas e o crime organizado (os mercados emergentes que realmente movimentam bilhões). Como há uma antiga promiscuidade entre diferentes escalões da máquina administrativa com empresas fornecedores de bens e serviços para o governo.

O que é estranho é que Garotinho tenha demorado tanto tempo para furar o tumor e, quando isto ocorreu, à sua revelia, não tenha dado apoio e, pior, tenha saído atirando contra a banda sã e agindo como se o atingido fosse ele. Uma de duas: ou Garotinho, num desses ataques de vaidade típicos de alguns homens públicos brasileiros, não consegue diferenciar o que realmente importante está em pauta na presente crise de seu governo, ou ele, a exemplo do que vê na presidência da República, decidiu aliar-se à banda podre política e administrativa, para seguir a carreira nacional que vislumbra para si.

Em qualquer dos casos, foi atacado de doença mortal. Com sua doença, contaminou irremediavelmente a candidatura Benedita, cuja estratégia tinha por base justamente o apoio do governo estadual. E pode contaminar também o PT local, cuja última decisão de romper com o governo e ficar com os cargos dificilmente deixará de ter repercussões negativas em sua atividade política. Menos mal que a bancada do PT na Assembléia Legislativa foi rápida e tomou a iniciativa de propor uma CPI para examinar todas as denúncias envolvendo a administração. E que Brizola, também de bate-pronto, apoiou a proposta. Se for sincera a declaração de Garotinho, de aceitá-la, sobrarão seqüelas, mas nem tudo estará perdido.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *