Um sinal inquietante

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um sinal inquietante, n. 217, s/d.

 

 

O Banco Mundial diz que a política social do governo FHC é ineficiente e que vai receitar melhorias. Dona Ruth acrescenta que, além de ineficiente, tal política é burocrática. O presidente do IPEA afirma que os indicadores sociais melhoraram, mas que a pobreza continua a mesma de 20 anos atrás. Outros economistas, não alinhados com o governo, consideram a pobreza muito mais extensa e profunda que há 20 anos. ACM, preocupado em tornar-se uma referência para os pobres, em disputa com a esquerda, manobra contra o medíocre salário mínimo previsto para 2001.

Reputados especialistas na área da segurança temem que o quadro de miséria descambe para situações insurrecionais, a exemplo de outros lugares do mundo. Afinal, a violência urbana atinge temperaturas jamais vistas, espalhando-se das periferias urbanas para as zonas centrais e de classes médias, com sucessivos levantes populares contra a ação policial, enquanto policiais, traficantes e bandidos assassinam-se mutuamente, numa constância macabra.

Por seu turno, o ministro Malan e o presidente FHC isentam os investidores estrangeiros, que jogam nas bolsas, de pagar a CPMF, algo que pode custar uns 400 milhões de reais aos cofres públicos. Exigem, porém, que o Congresso, para gastar cerca de 200 milhões de reais com a elevação do mínimo para 100 dólares, corte projetos ou outros programas sociais. Para eles, pobreza é um acessório, ao contrário dos investimentos especulativos, tratados como indispensáveis e privilegiados.

Para completar, alguns setores da esquerda parecem haver se iludido com um debate “propositivo” e “cor-de-rosa” no segundo turno, preconizado pela mídia oficialista logo após os resultados da primeira rodada eleitoral. Esquecendo-se de que tais resultados haviam demonstrado justamente o grau de insatisfação latente na sociedade brasileira e reconhecido no PT e na esquerda uma esperança de mudança, esses setores caíram na ladainha, esqueceram-se dos pobres como atores eleitorais decisivos e agora estão perplexos diante da ofensiva troglodita das elites burguesas.

Estas, apesar de algumas divisões pontuais, uniram-se na vala comum da baixaria rasteira, do anticomunismo e do reacionarismo desbragados, fazendo tábua rasa do que aparentemente diferenciava Collares, Tanigushi-Lerner, Magalhães-Jarbas e Deucimar-Almir Gabriel do primitivo e truculento Paulo Maluf. Demagogicamente, assumem-se como vingadores dos pobres e ameaçam o favoritismo da esquerda, que parece ainda não haver aprendido a falar para os desvalidos, sua principal razão de existir.

Apanhadas de surpresa no primeiro turno, por não acreditarem na profundidade do descontentamento social, nem na possibilidade do PT e da esquerda capitalizarem as insatisfações com um discurso combativo, radical e nacional, as elites disputam ferozmente essa insatisfação e jogaram fora qualquer prurido ético e democrático. Sem pudor, colocam à mostra o que sempre as unifica nos momentos em que correm o risco de perder parcelas do poder: sua natureza malufista e demagógica. Um sinal inquietante de que a questão social também será tratada ainda com mais demagogia e repressão, a exemplo do que vem tentando fazer o ministro Jungmann contra o MST.

 

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