Um pouco mais de reflexão

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um pouco mais de reflexão, n. 404, 03 jul. 2004.

 

 

Há setores da esquerda que parecem não haver aprendido com história. Hoje, como num passado não muito distante, começam a praticar políticas e ações que podem conduzir a esquerda a um processo de desagregação partidária ainda maior do que a já existente.

A pretexto de que o PT não serve mais como instrumento de luta em defesa dos trabalhadores, e de que o governo Lula serve aos interesses do capital financeiro internacional, estimulam abertamente a divisão do PT e os ataques diretos a Lula e seu governo, em geral tomando-os como inimigos principais. Pensam estar com a verdade e têm certeza de que, mais cedo ou mais tarde, as grandes massas lhes darão razão e os acompanharão.

Nada muito diferente do que ocorreu no Brasil nas décadas de 60 e 70 do século passado. Tomando por base a política direitista da direção do PCB, então hegemônico na esquerda brasileira, parcelas sucessivas de dirigentes e militantes desse partido romperam com ele e constituíram uma miríade de partidos diversos, pela esquerda. Todos se opunham ao revisionismo e à capitulação da direção pecebista. Mas cada um deles pretendia ser o representante verdadeiro dos interesses da classe operária e do povo contra a burguesia e o imperialismo. Sequer conseguiram unificar-se na luta contra a ditadura.

O resultado todos deveríamos conhecer e tomar como lição. Como nenhum deles tinha enraizamento nas grandes camadas populares, desdenhando o movimento real da base da sociedade para ver-se livre da ditadura, todos foram obrigados a banhar-se na bacia da derrota. As parcelas da esquerda derrotada que conseguiram erguer-se no momento seguinte foram somente aquelas que se integraram à ascensão do movimento e luta dos trabalhadores e demais camadas populares e participaram da construção do PT. Foi com base no movimento social que conseguiram transformar a derrota em vitória e, mais adiante, pela primeira vez na história brasileira, chegar ao governo.

Pode-se alegar que vivemos um contexto histórico diferente. É verdade. Mas a tragédia talvez seja maior. Nos anos de chumbo, os setores da esquerda combatiam seus direitistas como linha auxiliar do FMI e do imperialismo, mas tomavam a ditadura da direita política e militar como inimiga principal. Na atualidade, alguns setores da esquerda tomam o PT e o governo Lula como inimigo principal e, na ausência de qualquer movimento social, são levados a aliar-se à direita política. Sequer dão-se conta de que a derrota do PT e do governo Lula será, aos olhos de todos, a derrota da própria esquerda. Não pela esquerda, mas pela direita travestida de esquerda.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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