Um pouco de experiência histórica

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um pouco de experiência histórica, n. 431, 15 jan. 2005.

 

 

É evidente que a esquerda brasileira encontra-se diante de desafios que jamais enfrentou. Se levarmos em conta que a esquerda atual é descendente das primeiras associações operárias e populares surgidas no final do século 19, podemos dizer que ela levou praticamente cem anos sem o direito de eleger representantes para cargos de governo. O máximo que lhe foi permitido, em alguns poucos momentos democráticos ao longo do século 20, foi eleger representantes para as câmaras legislativas.

Apenas após a fundação do Partido dos Trabalhadores, no início dos anos 1980, a esquerda conquistou tal direito. Diadema e Icapuí foram as primeiras expressões de seu exercício. É evidente que essa conquista é fruto do longo acúmulo de lutas do povo brasileiro. Mais ainda, ela é resultado da constituição dos movimentos operário e popular, com suas lutas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, como uma potente força social. Talvez tenha sido a primeira vez, na história brasileira, que as camadas populares se elevaram à condição de uma verdadeira força social, de caráter nacional.

O Partido dos Trabalhadores e Lula só conquistaram o direito de assumir governos municipais, estaduais e federal, porque se formaram e evoluíram como expressão política dessa força social. Expressão política que continuou em ascensão durante os anos 80 (quase chegamos ‘lá’ em 1989) e mesmo durante os anos 1990. E ascensão que, paradoxalmente, ocorreu no quadro de um longo processo de estagnação da economia brasileira, de afundamento do socialismo no leste europeu, de ofensiva ideológica neoliberal em todo o mundo e de redução e dispersão da força social popular no Brasil.

Nessas condições, a eleição de Lula, em 2002, aconteceu num contexto histórico muito especial. Isto é, num contexto em que a continuidade daquela ascensão política de expressão popular, já sem suporte de uma força social poderosa, combinou-se a uma profunda divisão nas classes dominantes, permitindo derrotar o setor burguês que ocupava o governo central. Tentar explicar as dificuldades e desafios atuais da esquerda, deixando de lado tal contexto, é o mesmo que desdenhar a experiência histórica.

Nossa experiência histórica tem mostrado que, qualquer esforço da esquerda para resolver seus problemas políticos não passará de esforço vão se ela não tiver, como suporte, uma força social operária e popular, potente e combativa. Isso era verdade no passado, quando ela tinha que criar inúmeras artimanhas táticas para ter representantes no parlamento. E isso é verdade agora, em que ela está no governo sem ter o poder. Ou a esquerda enfrenta o desafio de reconstituir a força social popular ou vai ficar deblaterando e definhar guerreando a si própria.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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