Um pouco de capitalismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um pouco de capitalismo, n. 547, 27 abr. 2007.

 

 

É verdade que ainda temos companheiros que, ao pensar no socialismo, pensam nele como um desejo, uma vontade profunda, uma utopia. Como tenho dito, prefiro pensar o socialismo como uma possível solução para os problemas do desenvolvimento econômico, social, cultural e político do capitalismo. Em outras palavras, acho que pensar no socialismo sem pensar no capitalismo real é quase como pensar numa viagem espacial sem foguete lançador.

Tomemos o caso do Brasil. Tem gente que vive reconhecendo que nosso país tem enormes desigualdades, é injusto e desumano. Mas é incapaz de dizer que o Brasil é um país capitalista. E que, como a maioria dos países capitalistas, possui enormes desigualdades, é injusto e desumano. Afinal, as leis gerais que regem o capitalismo são as mesmas para todos os países ou regiões onde esse modo de produção se implantou e criou raízes.

No entanto, essa generalidade pode dizer tudo, e não dizer nada. Simplesmente porque o capitalismo brasileiro não é igual aos capitalismos ianque ou francês. A forma como aquelas leis gerais atuam difere de país para país, porque o legado histórico de cada um deles obriga as leis gerais do capitalismo a adaptar-se, a moldar-se, e a criar características próprias, que o distinguem dos demais. O que faz com que alguns dos aspectos fundamentais do capitalismo demorem mais tempo para realizar-se plenamente, em alguns desses países ou regiões, do que em outros.

Só para relembrar um aspecto. Na maior parte dos países capitalistas maduros, o capitalismo viu-se obrigado a lutar ferozmente contra as relações feudais ou as relações escravistas de propriedade. A revolução gloriosa, na Inglaterra, a revolução burguesa, na França, e a guerra de secessão, nos Estados Unidos, são episódios marcantes e revolucionários da história do capitalismo para tornar-se o modo de produção predominante.

No Brasil, o capitalismo não nasceu em luta contra o sistema semi-escravista e semi-feudal prevalecente na agricultura e na sociedade. Nasceu promovido pelos latifundiários mercantilistas das plantations de café, diante das oportunidades abertas pela industrialização européia, a partir da segunda metade do século 19. Apresentou um salto evolutivo entre os anos 1910 e 1920, substituindo importações nas brechas da primeira guerra mundial. Porém, só foi tomar impulso tardiamente, nos anos 1930. Mesmo assim, também sob a tutela do setor latifundiário que assumiu o poder de Estado, criou empresas estatais, e promoveu um pacto entre o capital estatal e os capitais privados.

Esse nascimento em berço esplendido tem marcado a história do capitalismo brasileiro com características conservadoras e dependentes muito próprias.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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