Um perigo à frente

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WPO | ART | CON | Um perigo à frente; jan. 2002.

 

 

O ano de 2001 apresentou um fecho a rigor. Apesar das ordens expressas do presidente, todas as forças de sua base de sustentação não faziam outra coisa que cuidar da campanha de 2002. Depois, pela primeira vez em muitos anos, apesar da postura inflexível e quase terrorista de alguns de seus ministros e de sua equipe econômica, FHC não conseguiu sufocar a greve dos funcionários do INSS e dos professores e  foi obrigado a aceitar em parte as reivindicações salariais desses trabalhadores. Afora isso, teve que enfrentar uma resistência séria de deputados de sua própria base ao apresentar o projeto de flexibilização da CLT e viu-se praticamente derrotado na fixação do novo salário mínimo e das alíquotas do IR.

Se esses acontecimentos apontam para um cenário de crescente incapacidade do governo em manter as rédeas do poder, eles também indicam uma preocupante inapetência do chefe do governo em enxergar a realidade e medir os limites de sua própria força ou fraqueza. Ao contrario de Sarney, que a partir de 1988 se deu conta da impossibilidade de impor sua vontade e apenas se esforçou para não entornar o caldo das disputas políticas, FHC parece predisposto a interferir em todos os assuntos e, pior ainda, a manter seu programa de reformas neoliberais, apesar dos estragos e da crescente resistência que encontra.

A não ser que o presidente esteja apostando no PFL, a situação da candidatura do PSDB é um exemplo de como sua intromissão está contribuindo não só para a dispersão das forças conservadoras que ainda o sustentam, como para alimentar a candidatura Roseana Sarney. De uma opção apenas lembrada na falta de outra melhor, Roseana tornou-se rapidamente uma força admirada e cortejada pelo grande empresariado, que já estava em pânico por não contar com um candidato capaz de enfrentar Lula. Assim, em vez de ter que administrar apenas a disputa entre Serra e Tasso para escolher o cabeça de chapa da aliança conservadora, a teimosia de FHC em adiar a decisão do PSDB e manter sob seu controle aparente os mecanismos de governo, vai obrigá-lo a uma negociação imprevisível para tentar refazer aquela aliança e conseguir um candidato único da situação.

Foi também a inflexibilidade presidencial que jogou o ministro Paulo Renato no fogo de desgaste da greve dos professores e queimou suas pretensões, já fracas, de disputar a indicação partidária. Ao contrário de seu colega da previdência, Brandt, fiel ao PFL, que decidiu negociar com os grevistas, Paulo Renato aceitou fazer o papel de marionete no jogo de esconde-esconde armado pelo presidente para tentar escapar da decisão do poder judiciário referente ao pagamento dos professores e deu um tiro no próprio pé.

Não bastasse a tentativa de impor ao pais uma medida fascista para impedir o exercício do direito de greve, FHC também incumbiu o ministro Martus, do planejamento, de praticar um passa moleque no acordo acertado com os grevistas da previdência. Sob a ameaça de criar uma crise e nova greve, viu-se obrigado a voltar atrás. Porém, não recuou da disposição de encaminhar à Câmara dos Deputados o projeto que torna inócuos muitos dos direitos dos trabalhadores, utilizando-se do dispositivo que trancava todas as atividades parlamentares, enquanto o projeto não fosse votado. Como um elefante em casa de louça, o presidente criou incidentes com bastante gente de sua base para a aprovação, por uma margem relativamente pequena de votos, de medidas que correm o risco de não serem adotadas pelo Senado e que, afora prejudicarem ainda mais aos trabalhadores, terão pouco efeito na economia e na geração de empregos.

O que se pergunta é se, com a volúpia de mandar, FHC continuará tentando impor sua vontade não só a aliados, que já não a levam em conta, como ao povo brasileiro, que já não as suporta. Em outras palavras, FHC tornou-se um perigo, capaz de criar crises ao achar que, estando investido da autoridade presidencial, isso lhe dá força para fazer o que bem entenda.

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