Um debate fora de foco (9)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (9), n. 442, 02 abr. 2005.

 

 

Olhando a situação brasileira, sem o foco obsessivo nos reais ou fictícios descaminhos do governo Lula, é possível notar, além da ausência de uma mobilização social, como já reiteramos em outras ocasiões, que o embaralhamento entre estratégia e tática é uma realidade tanto para o PT, quanto para os que supostamente o criticam pela esquerda.

Quando a direção do PT não analisou, como deveria, a correlação de forças políticas no parlamento, a partir dos interesses de classe envolvidos, e supôs que os adversários ou inimigos políticos seriam éticos e cumpririam as regras estabelecidas, mesmo que aparecesse alguma oportunidade de ouro para impor uma derrota ao PT e ao governo, ela simplesmente negligenciou a disputa estratégica. Quando, ao mesmo tempo, escolheu um candidato a presidência da Câmara que tinha trânsito relativamente estreito entre os diversos grupos que compõem o parlamento, ela negligenciou a disputa tática.

Por outro lado, quando alguns dos atuais críticos do PT e do governo Lula atacam, ao mesmo tempo, o capital financeiro, o latifúndio, o agronegócio e o imperialismo, eles não só ampliam o número de inimigos, como trazem de cambulhada, para o campo adversário, setores capitalistas nacionais médios, e até pequenos, envolvidos no chamado agronegócio. De uma tacada só, desconsideram a estratégia de concentrar o fogo no inimigo principal, e a tática de ganhar ou neutralizar os inimigos secundários.

Nessas condições, parecemos estar no pior dos mundos. Sem mobilização social, não há nada que force a esquerda e as camadas populares a re-aglutinar-se. Sem estratégia clara, e sem táticas que ajudem a acumular forças, isto é, sem política condizente com a atual realidade brasileira e internacional, não há o que force a esquerda a integrar-se ao movimento social realmente existente, nem o que lhe permita unificar-se e apresentar-se como referência para o futuro.

Nesse sentido, os que acusam o governo Lula de responsável pela falta de clareza política e ideológica da esquerda simplesmente fogem de sua própria responsabilidade. Talvez devam reconhecer, para início de conversa, sua incapacidade em oferecer, para a própria esquerda e para o conjunto das classes trabalhadoras e camadas populares da população brasileira, um programa político que abandone a mesmice das generalidades e ofereça respostas e saídas para os desafios da atualidade.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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