Um debate fora de foco (8)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (8), n. 441, 26 mai. 2005.

 

 

Este analista deve ser, verdadeiramente, fora de foco. Teima em dizer que, mesmo que quisesse, o PT realmente existente não teve, nem tem, qualquer papel no descompasso entre mobilização social e movimento político. Se fosse possível a um partido político, voluntariamente, determinar a mobilização social, por que os críticos do PT jogam sobre esse partido o ônus da desmobilização, ao invés deles próprios realizarem tal mobilização?

Não o fazem porque a mobilização social tem seu próprio curso, objetivo, com períodos de ascensão e de declínio, independentemente da vontade dos partidos e de quem quer que seja. A um partido como o PT cabe ajudar no processo de organização dos elementos mais conscientes do movimento social real, acumular as forças possíveis, e preparar-se para quando a mobilização social voltar, mais uma vez, a um processo ascendente, com suas reivindicações econômicas, sociais e políticas próprias.

Se o PT não souber resolver essa questão, pode muito bem ser atropelado pela eclosão futura da mobilização social, perdendo a capacidade de disputar a hegemonia política, da mesma forma que aconteceu aos partidos comunistas e a outras correntes de esquerda, no final dos anos 1970, quando a classe operária veio para a cena social e política. É isso que coloca os petistas diante da necessidade de evitar as confusões entre a estratégia e as táticas.

Nesse sentido, este analista é mesmo fora de foco. Diferentemente do leitor Marcelo Lima, e por mais divergências que tenha com Genoino, Palocci, Dirceu e outros, nega-se a qualificá-los como caterva. Ou seja, como súcia, malta,ou corja. Para negar-se a isso, não precisa basear-se nos estatutos ou programa do PT, nem na representação que aqueles dirigentes fazem de si mesmos. Toma como base apenas a própria experiência histórica, de uma época não muito distante, em que o debate de idéias era substituído por qualificações desse gênero, que não contribuíam, nem contribuem em nada, para esclarecer as dificuldades táticas e estratégicas.

Portanto, a questão de saber o que pretendem os dirigentes petistas, ou considerá-los no campo inimigo, é falsa. A prova da postura prática diante da luta social está ausente. Ou obscurecida por dificuldades táticas e estratégicas consideráveis, cuja solução só é fácil para quem considera que a correlação de forças nos é favorável, ou apela para citações fora de foco de Marx.. Por isso, enquanto a situação permanecer como agora, ele continuará fora de foco, tratando tanto os que o criticam por isso, quanto aqueles dirigentes petistas, como companheiros, e não como inimigos. E fazendo força para o governo Lula dar certo, mesmo discordando de muitas de suas políticas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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