Um debate fora de foco (7)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (7), n. 440, 19 mai. 2005.

 

 

O que existe hoje, de movimento e mobilização real, no chão das fábricas? Haverá algo como as operações tartaruga e diversos outros movimentos restritos, que ocorreram nos anos 70 e, de certo modo, prenunciaram os grandes movimentos grevistas de 1978 a 1980, embora pouca gente houvesse dado a eles a importância e a atenção que mereciam?

O que existe hoje de movimento e mobilização real, nas periferias pobres das grandes cidades? Haverá algo que tenda a unificar os pequenos movimentos por moradia, melhoria das condições de saneamento, transporte, saúde e educação e possa desembocar em algum movimento idêntico àquele que se colocou contra o custo de vida, nos final dos anos 1970, e depois se juntou à mobilização operária e contribuiu para as grandes mobilizações que apressaram o fim da ditadura militar?

O que existe hoje de movimento e mobilização real, nas áreas rurais, embora lá se encontrem, além dos Sem Terra, alguns milhões de pequenos produtores agrícolas e de assalariados? A mobilização dos lavradores sulistas, em vista dos estragos causados pela seca deste ano, tem organicidade e perspectiva de continuidade em defesa da agricultura familiar e democratização da propriedade da terra? O que existe nos setores estudantis e outros setores profissionais e sociais, que possa representar embriões de futuras mobilizações sociais de porte?

Sem dúvida, há muita coisa, incluindo-se aí os movimentos de economia solidária e de micros e pequenos empreendedores, buscando sobreviver à onda desestruturante do capitalismo contemporâneo e ao cipoal de leis e impostos que impedem seu desenvolvimento. No entanto, diante disso, tem faltado à esquerda em geral, e aos petistas, em particular, a vontade militante de compreender que devem estar integrados a tais movimentos reais, participando deles e contribuindo para sua ampliação.

Mais do que isso, tem faltado uma política que, levando em consideração o que há de comum a todos esses movimentos, os chame para uma mobilização unificada, tendo em vista alcançar os objetivos a que cada um se propõe. Os grandes movimentos operários e populares, por salário e contra o custo de vida, dos anos 70 e 80, só se unificaram quando desembocaram no objetivo de dar fim à ditadura e alcançar as eleições diretas.

No quadro atual, apelar a uma mobilização contra o governo Lula, além de visar o inimigo errado, não encontra respaldo nas grandes massas populares, embora existam setores descontentes com a situação. O que precisamos é uma mobilização que clame por reformas democráticas e populares, e dê suporte a elas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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