Um debate fora de foco (6)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (6), n. 439, 12 mai. 2005.

 

 

Não parece haver dúvida, para ninguém, que a mobilização social, como suporte de qualquer movimento político, é uma questão estratégica. E que, no momento, não existe qualquer grande mobilização social, nem sindical, nem popular, seja por suas reivindicações econômicas e sociais, seja a favor ou contra os projetos governamentais.

As mobilizações dos sem-terra, embora tenham amplitude em alguns momentos, são pontuais e restritas. Pode-se dizer que há um certo consenso de que as grandes massas populares brasileiras estão desmobilizadas. Ou, como se costumava dizer em passado não tão longínquo, elas estão num longo e profundo descenso em seu movimento.

Como decorrência disso, há gente que entende tal descenso como o fim dos movimentos sociais. Por outro lado, há os que enxergam nos inúmeros pequenos movimentos sociais, que resistem à destruição produtiva das grandes corporações capitalistas, não só a persistência da mobilização social, mas também uma grande mobilização, a partir da soma aritmética desses movimentos dispersos pelo país. Também há os que consideram que o governo Lula peca por não “criar as condições” para a mobilização. Assim como há, ainda, aqueles que acham que podem colocar grandes massas nas ruas, bastando vontade e ação políticas.

Embora no debate público esse problema estratégico surja com as variantes acima, ele não é, porém, o centro da preocupação. Vem à tona como argumento marginal, e não como aquele fator que pode resolver as pendências que envolvem a esquerda. Nesse sentido, pode-se repetir mil vezes que a história tem mostrado que não basta vontade, nem ação, para colocar as grandes massas nas ruas. Ou reiterar que a “criação das condições para a mobilização popular” é uma inversão, pois são as condições criadas pelo próprio movimento real, ou movimentos reais, que podem desencadear a mobilização.

Enquanto a mobilização social não ocorrer com a devida potência, como há pouco na Bolívia, tudo não passará de debate literário. Nessas condições, a solução prática para tal problema talvez esteja em detectar e atuar junto com aqueles inúmeros pequenos movimentos econômicos, sociais e políticos que buscam os caminhos para firmar-se.

É junto com eles que será possível verificar sua capacidade de mobilização em escala regional e nacional, de modo a pressionar e forçar a correção da orientação estratégica e tática do governo popular ou, ao contrário, da interpretação que uma parte da esquerda faz daquela orientação. Ninguém, na esquerda, deveria ter medo de fazer esse teste prático.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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