Um debate fora de foco (5)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (5), n. 438, 05 mar. 2005.

 

 

Como afirmamos nos comentários anteriores, a derrota do candidato oficial do PT à presidência da Câmara foi um exemplo significativo do que pode acontecer quando há descompasso entre mobilização social e movimento político. Porém, além disso, também pode ser encarado como um exemplo típico de confusão entre estratégica e tática, confusão que parece presente em muitas das ações petistas.

Um dos piores erros estratégicos que uma força política pode cometer reside em negligenciar sua visão sobre o inimigo, ou adversário. No caso da presidência da Câmara, o PT acreditou piamente que o PSDB e o PFL iriam cumprir as regras, quando FHC e outros pajés conservadores vinham dando sinais de pretenderem passar à ofensiva contra o governo e o PT, e não perderem qualquer oportunidade, por menor que fosse, para impor alguma derrota a ambos.

Por outro lado, sabe-se que parlamentares do PMDB, PTB, PP etc não são base de sustentação de quem quer que seja. São aliados táticos, com interesses próprios, unidos momentaneamente em torno de algum objetivo, real ou pretensamente comum. Tomá-los como aliados estratégicos, imunes aos rompimentos e re-arranjos que fazem parte do dia a dia da luta política e parlamentar, é o mesmo que perder de vista a natureza dos reais interesses que esses partidos representam.

Além disso, em qualquer processo de luta, jamais uma força política pode aceitar ir para o combate, a não ser em caso de desespero, se não está com suas fileiras unificadas para travá-lo. Ao deixar a candidatura Virgílio movimentar-se, sem medo de ser severamente punida, o PT resvalou nesse preceito estratégico e marchou para a derrota. Ninguém mantém uma aliança com quem não demonstra força para manter a própria unidade interna.

Do ponto de vista tático, numa Câmara ainda dominada por forças conservadoras, tendo os ruralistas como tropa de choque, e os fisiológicos dos mais diferentes naipes como aproveitadores de oportunidades, apresentar a candidatura Greenhalgh foi pura ingenuidade. Ou superestimação da capacidade de agregação do PT. Ou subestimação da força dos adversários. Ou tudo isso junto. Quaisquer que fossem as concessões que se fizesse, só um milagre faria com que ruralistas e fisiológicos o aceitassem.

Nessas condições, em que as confusões estratégicas e táticas somaram-se ao descompasso entre mobilização social e movimento político, estava armado o cenário para que o conservadorismo político desse uma lição ao PT. Ou, como disse Cavalcanti, o Severino do PP “aliado”, “foi uma porrada, gostou…?”. O problema, agora, consiste em ver se governo e PT, sem perder de vista as necessidades táticas, revigoram sua visão estratégica. Principalmente porque o PSDB, o PFL, e a massa conservadora do Congresso, não estão dispostos a dar trégua.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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