Um debate fora de foco (4)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (4), n. 436, 17 fev. 2005.

 

 

Talvez estejamos vivendo, neste momento, com a derrota do candidato oficial do PT à presidência da Câmara, um exemplo significativo do que pode acontecer quando há descompasso entre mobilização social e movimento político. Na ausência de um movimento social que o empurrasse e, ao mesmo tempo, lhe desse sustentação, para uma política socialmente mais radical, e na esperança de que a burguesia ficaria satisfeita com suas concessões, o governo trabalhava na perspectiva de ampliar suas alianças políticas, introduzir cunhas no campo adversário e reforçar sua base parlamentar.

Em teoria isso parecia adequado para obter tranqüilidade institucional. Na prática, porém, tornava-se cada vez mais difícil porque, sem mobilização social, o que sobra como instrumento de coesão e barganha para um governo popular é o aparato do Estado. Nessas condições, se houver dentro do governo resistência séria à prática do fisiologismo e do tráfico de influência, impedindo-o de abastardar-se, as coisas se complicam. A tendência natural é o aumento das disputas na base aliada, em torno dos limitados espaços no poder, tornando comuns as dissidências, como a de Virgílio Guimarães.

Por outro lado, ao contrário do que pensam alguns, a burguesia continua insatisfeita. Demonstração disso é a oposição conservadora, que a representa politicamente. Ela apoderou-se das bandeiras que uma parte da esquerda brande contra o governo e decidiu não dar mais trégua. Do mesmo modo que essa parte da esquerda, o tucanato e o restante conservador bate pesado nas teclas do aparelhamento da máquina, autoritarismo, política econômica do governo anterior, partido e governo dos tributos, inoperante nos programas sociais, populismo, etc, etc.

A diferença é que essa oposição, tendo a seu lado a mídia, impõe seu selo direitista e reacionário, mas o encobre hipocritamente com o manto do social (social-democracia, social-liberalismo, etc.). E aposta, escancaradamente, nas dissensões internas do PT e da base aliada do governo. Aliás, não só aposta, como trabalha para alimentá-las de todas as formas. Enfiou-se até a medula dos ossos na candidatura Virgilio, para viabilizar a eleição de Severino Cavalcanti, embora tenha jurado de pés juntos que respeitaria o regimento da Câmara, que garante ao partido de maior bancada a presidência da casa. E saiu logo depois em campo para dizer que o PT é que teria agido autoritariamente.

Não é difícil concluir que o governo e o PT foram derrotados na Câmara, não por seus defeitos, mas justamente por suas qualidades. A oposição conservadora decidiu chegado o momento de desmoralizá-los, obrigando-os a livrar-se das resistências internas que os impedem de tornar-se iguais aos governos passados e aos demais partidos. Resta saber se, sem mobilização popular que os sustente, ambos vão capitular, ou resistir até que os trabalhadores e as demais camadas populares voltem a colocar-se em movimento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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