Um debate fora de foco (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (3), n. 435, 12 fev. 2005.

 

 

Durante sua expansão, até os anos 70, o capitalismo brasileiro criou fortes classes trabalhadoras, em especial uma classe operária concentrada no ABC paulista. A força delas marcou a mobilização social do final dos anos 70 e da primeira metade dos anos 80.

Essa força social criou um sindicalismo combativo e influenciou os cenários políticos. Foi determinante para o fim da ditadura, a criação do PT e a democratização. Abriu aos comunistas e socialistas a oportunidade de governarem, pela primeira vez na história brasileira. Constituiu-se, pois, como suporte para um regime socialista no Brasil.

No decorrer dos anos 80, porém, o capitalismo iniciou a desorganização dessa força social. Re-localizou e reduziu o tamanho de suas unidades produtivas, dispersando os trabalhadores. Retirou destes algumas das condições objetivas que lhe permitiam organizar-se naturalmente. Além disso, a longa estagnação econômica e a elevação da produtividade proporcionada pela revolução tecnológica, aumentaram o desemprego. Com isso, aumentou a concorrência ou competição entre os próprios trabalhadores no mercado de trabalho.

Esse processo foi acompanhado de uma ofensiva ideológica sem igual. As idéias neoclássicas ou neoliberais se enraizaram no pensamento de todas as classes sociais e em seus representantes políticos. Quem, na primeira metade dos anos 90, não se deixou embair pelas promessas de paz e prosperidade, pós-fim da Guerra Fria?

As classes trabalhadoras se atrofiaram social, ideológica e politicamente. Sua mobilização social entrou em refluxo. Paradoxalmente, tal refluxo não se refletiu imediatamente no movimento político popular. Este manteve-se em ascensão até o final dos anos 80. Deu um susto nas classes dominantes, quase levando Lula ao governo, em 1989. E durante toda a década de 1990, embora a mobilização social tenha agravado seu quadro de refluxo, continuou ascendente, como mostraram as crescentes vitórias eleitorais do PT e demais partidos de esquerda para os legislativos e executivos municipais e estaduais.

Esse descompasso entre mobilização social e movimento político popular tem se refletido nas contradições com as quais as esquerdas têm se debatido para governar nos limites de uma democracia burguesa entulhada de restolhos autoritários e exclusivistas. Sem uma força social operária e popular capaz de dar-lhes suporte político para reformas mais profundas, os governos democrático-populares gastam grande parte do seu tempo tentando ao menos reordenar o capitalismo, como base para avanços futuros. Alguns até esquecem que têm compromissos com o socialismo.

Nessas condições, o mais fácil é chamá-los de traidores. No entanto, isso nem de longe resolve o problema estratégico da reconstrução da classe operária e da construção de uma nova força social popular.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *