Um debate fora de foco (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (2), n. 434, 05 fev. 2005.

 

 

Os comunistas jamais se propuseram implantar um regime comunista no Brasil. Sempre rebaixaram seu programa (às vezes até demais) porque a sociedade brasileira ainda não amadurecera para isso. Os socialistas, por seu lado, também pareciam convencidos, até o final dos anos 80, de que as condições para um regime socialista ainda não estavam dadas, e rebaixaram seu programa para o nível de democracia popular.

Ou seja, mesmo tendo objetivos estratégicos relativamente claros (pelo menos em teoria), eles se viam obrigados a ter em consideração a realidade brasileira, em termos de desenvolvimento das forças produtivas, das relações de produção, da organização social, da cultura predominante etc. Somente a partir dos anos 80, apesar da débâcle socialista no leste europeu e dos recuos estratégicos da China, Vietnã, Cuba, Camboja, Laos, e mesmo Coréia do Norte, o socialismo passou a ser apresentado como saída presente para o Brasil superar sua crise estrutural.

O conceito socialista, porém, continua polêmico. Alguns querem qualificá-lo. Outros o consideram o objetivo estratégico máximo. E ainda outros, como eu, o tomam apenas como um regime de transição do capitalismo para o comunismo. Ou seja, o que para uns é o objetivo estratégico, para mim é um objetivo tático. O que, para mim será algo natural no processo de transição – a convivência de formas capitalistas e socialistas, tanto na economia, quanto na política, na sociedade e na cultura, conflitando e colaborando entre si para o desenvolvimento das forças produtivas, das relações de produção, das formas de organização social e cultural, para outros parecerá uma traição à causa.

Para complicar ainda mais as coisas, o capitalismo brasileiro chegou a um grau de desenvolvimento que possibilita um regime de transição socialista mas, paradoxalmente, desorganizou as forças sociais que poderiam sustentar tal regime. Em tais condições, o movimento social popular teve força para obrigar o capitalismo a abrir as comportas políticas que permitem aos socialistas participar de parlamentos e governar municípios, estados e a nação, mas não teve força para impor reformas profundas de cunho popular.

Os socialistas podem escapar disso, que parece uma armadilha, sem ao mesmo tempo desmoralizar-se ante as grandes massas da população? Ou eles devem participar desse processo, com todos os riscos que ele implica, para que a própria experiência das grandes massas aponte outras alternativas? Mesmo porque, a questão estratégica central, agora como no futuro, é a construção de uma força social popular realmente potente para impor sua vontade. Sem ela, tudo o mais é literatura.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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