Um debate fora de foco (10)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (10), n. 443, 09 abr. 2005.

 

 

Durante muito tempo acreditei que apenas a direita tinha a capacidade, ou incapacidade, de jamais aprender com a história. Estava enganado. Entre nós, na esquerda, há muita gente do mesmo tipo, que prefere atacar a própria esquerda como ao pior inimigo, em nome da defesa do assalto aos céus, sem que haja o mínimo de condições para tanto. E que, para demonstrar a justeza de suas teses, não se perturba ao deturpar as palavras dos adversários teóricos e práticos.

Vale a pena lembrar que ainda não fez cem anos a história da disputa, sem tréguas, travada entre os social-democratas e os comunistas, na Alemanha. E que também não fez cem anos que os comunistas chineses perseveraram, durante um longo período, na proposta de uma unidade de ação com seu inimigo de morte, o Guomintang de Chiang Kaishek, para enfrentar um inimigo maior, o imperialismo japonês. No primeiro caso, aquela disputa abriu a porta para a vitória dos nazistas. Não é preciso rememorar tudo o que sabemos haver ocorrido depois. No segundo caso, a frente única foi não somente importante para a vitória da China contra o Japão, mas também para a vitória da revolução da Nova Democracia na China.

Em outras palavras, a definição do inimigo principal não é uma questão estratégica menor. Ela é uma questão chave e, provavelmente, o centro da discussão atual dentro da esquerda brasileira, embora haja gente que não se dá conta disso. Concretamente, quem é o inimigo principal dos brasileiros? É o governo Lula? São o governo Lula e o campo majoritário do PT? São o governo Lula, o campo majoritário e o campo crítico, que permanece dentro do PT? Ou são o PSDB e o PFL, do ponto de vista político, e o sistema financeiro capitalista, do ponto de vista econômico e social?

Sem fazer essa distinção, fica mesmo difícil entender que, mesmo não concordando com muitas das ações do governo Lula, ou mesmo estando contra elas, não é possível confundi-las como ações dos inimigos e tratá-las como tal. Mesmo porque, nas condições concretas da luta de classes e da correlação de forças atualmente presentes no Brasil, fazer essa confusão, e agir tomando-a como base, significa simplesmente cair no regaço da direita, por melhores que sejam as intenções. E, como se sabe, das melhores intenções o inferno anda cheio.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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