Um debate fora de foco (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Um debate fora de foco (1), n. 433, 29 jan. 2005.

 

 

O debate sobre o governo Lula às vezes parece fora de foco. Por exemplo, há muita preocupação em demonstrar que Lula e o PT não representam mais a esquerda. Há mesmo os que afirmam peremptoriamente que Lula e o PT estão a serviço da burguesia e do capitalismo internacional.

Por isso, supor que Lula e o PT possam estar sob o fogo da burguesia, não passaria de idiotice, quase um crime, merecedor de qualificativos de toda ordem. Ao invés de argumentar, preferem desqualificar os que não corroboram as análises totalmente negativas, no velho estilo da direita, e de uma esquerda que não sabe diferenciar estratégia e tática.

Talvez fosse mais benéfico, para a esquerda como um todo, começar justamente por aí. Estamos falando de estratégia ou de tática? De ideologia ou de política? De reforma ou de revolução? De eleições ou de insurreição? Se considerarmos que a eleição de Lula representou uma vitória estratégica, com forte componente ideológico, tão avassaladora quanto uma revolução, então talvez pudéssemos julgar Lula e o PT pelos parâmetros apresentados pelos que neles só enxergam capitulação.

No entanto, se considerarmos aquela eleição uma vitória tática, com baixo componente ideológico e, ainda por cima, com baixa mobilização social, então os parâmetros devem ser outros. Se a isso acrescentarmos o fato de que aquela vitória se deveu mais à profunda divisão política da burguesia do que à mobilização social das camadas populares, isso deveria nos obrigar a uma reflexão ainda mais cuidadosa.

Em tais condições, podemos ter fortes críticas à condução das políticas governamentais. Podemos nutrir divergências profundas em torno de uma série considerável de medidas e orientações. Mas seria um erro crasso jogar Lula e o PT no campo do inimigo e tratá-los como tal. Transformar o amigo, ou o aliado, em inimigo, tem sempre graves conseqüências políticas. Historicamente, tem constituído uma das causas recorrentes de algumas das piores derrotas da esquerda no Brasil e em muitos outros países.

Aí já não estaríamos cometendo um erro ou avaliação tática, mas um erro estratégico. A estratégia, como se sabe, através dos manuais marxistas e não-marxistas, trata dos objetivos, das forças inimigas principais e secundárias, e das forças dirigentes e fundamentais. A tática trata dos desvios que a correlação real das forças em presença impõe no caminho para alcançar os objetivos. O que é estratégico e o que é tático na ação do governo Lula e do PT?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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